“As propostas do cabeça de lista do PAICV são um insulto ao Sal” 25 Junho 2012
Jorge Figueiredo gere há oito anos os destinos do Município do Sal. Na corrida às eleições de 1 de Julho próximo espera merecer a confiança dos salenses para legitimar um terceiro mandato. Neste exclusivo ao jornal A Semana, o candidato do Grupo Independente da Mudança e Consolidação das Cidades do Sal (GIMCS) fala das propostas do grupo independente que lidera, responde às acusações de corrupção que lhe faz o seu principal adversário político, Démis Lobo, e comenta a ameaça de voto nulo da cidade de Santa Maria.
Fale-nos da sua plataforma eleitoral.
A nossa plataforma é a renovação clara do compromisso do GIMCS para com a população do Sal. Centra-se na visão “construindo cidades para as pessoas”, na convicção de que as obras executadas até este momento por este grupo independente garante-nos, por um lado, o direito de renovação do voto de confiança junto ao eleitorado e, por outro, confirma a necessidade de continuar o trabalho na “mudança continuada”. As metas centram-se na confirmação e consolidação das cidades no Sal, enquanto espaços urbanos atractivos a uma vivência e convivência cidadã em todas as áreas. Isto é, espaços desportivos, culturais, de convívio, de formação técnica e superior que dão substrato às aspirações do salense.
Acredita que a sua plataforma eleitoral consolida a vantagem competitiva da ilha do Sal em relação às outras ilhas?
Naturalmente, sim. Os programas que compõem a plataforma eleitoral pretendem, efectivamente, dotar a ilha das componentes de competitividade necessárias para enfrentar os desafios que se avizinham.
É presidente da Câmara do Sal há oito anos e há promessas do seu primeiro mandato que estão por realizar. Acha que a população salense está satisfeita com o trabalho da sua equipa?
É evidente que sim. É a sensação que tenho no contacto diário com a população e que caracteriza a minha forma de estar na política. A obra realizada pelo GIMCS é visível, palpável e incontornável. Por isso, é total a nossa confiança na bondade das nossas propostas e numa vitória clara e expressiva no dia 1 de Julho.
Quais são as metas, para a ilha do Sal, ainda por atingir pelo GIMCS?
Como principais desafios temos a organização local mais próxima da população, a utilização das novas tecnologias no processo de desconcentração/descentralização a nível local para uma maior transparência, legalidade, proximidade e subsidiariedade em relação às organizações com base comunitária. Outra meta do GIMCS é a infra-estruturação urbana e finalmente consolidar as acções de integração social e de economia local, visando essencialmente o emprego jovem.
Notamos alguma renovação nas suas listas. Qual a percentagem e porquê?
Temos cinquenta por cento de renovação da lista, concorrente à Câmara Municipal. Para a Assembleia Municipal, a renovação é na ordem dos quarenta por cento. As mudanças justificam-se pela necessidade de remodelação e introdução de novas ideias, mas mantendo a estrutura tradicional do GIMCS.
Alguns dos seus companheiros de anteriores mandatos ficaram de fora. Isso aconteceu sem problema algum?
Alguns companheiros não estão na lista mas continuam alinhados no ideal do GIMCS e contribuem para a nossa vitória. O processo de renovação das listas ocasiona esse tipo de situação que, do nosso ponto de vista, é normal.
Qual a sua estratégia para vencer estas eleições?
A estratégia visa objectivamente a vitória no dia 1 de Julho. Como compreenderá, o segredo é a alma do negócio. Contudo, as nossas propostas estão plenamente contextualizadas na nossa plataforma que pode ser acessada no nosso site www.grupogimcs.com ou na minha página no facebook.
Afirma-se como um candidato independente, mas tem o apoio do MpD, partido com o qual o GIMCS é muitas vezes conotado. Mais, o GIMCS é apontado como sendo uma ala camuflada desse partido da oposição. O que distancia o seu projecto do MpD?
O GIMCS é a única proposta independente de emanação da sociedade civil que persiste em Cabo Verde, assumindo através da sua conduta a independência e equidistância dos partidos políticos, e tem-no feito com toda a transparência, dignidade e durabilidade. Apesar de a comunicação social e dos partidos políticos insistirem nessa dependência em relação ao MpD, recordo que a nossa independência em relação a este partido é clara e bastamente provada através das entrevistas que tenho dado enquanto líder do GIMCS ao longo dos últimos oito anos. O nosso compromisso é com a população do Sal, com o desenvolvimento desta ilha, independentemente do partido que está a exercer o poder central. O GIMCS não tem culpa de, infelizmente, ter exercido o poder autárquico sob a gestão do PAICV.
O seu principal adversário é o candidato do PAICV, Démis Lobo, que é uma figura recente nas lides políticas e portador de ideias frescas. Até que ponto essa mudança de cenário na política salense pode alterar o statu quo e atrapalhar a sua corrida a um terceiro mandato?
Eu não devo considerar e sequer apreciar as qualidades do candidato do PAICV.
Não receia que o seu eleitorado veja com maus olhos a sua recusa em falar do seu principal adversário político?
(risos) O meu adversário é o PAICV, que continua, infelizmente, a insultar os salenses com as suas propostas para cabeças-de-lista.
Démis Lobo acusa a sua Câmara de corrupção na venda de terrenos. O que tem a dizer sobre isso?
Provavelmente, será ele o corrupto. Não acredito que um candidato às autárquicas no Sal tenha conhecimento efectivo de corrupção neste mesmo município e não apresente documentos de confirmação nem solicite a intervenção da entidade própria, que é a Procuradoria da República. Falar em comícios, deturpar as informações junto do eleitorado leva-me a acreditar que o candidato é exactamente igual ao seu partido. Não olha a meios para chegar ao poder.
Outrora uma ilha pacata e acolhedora, o Sal tem hoje problemas novos, nomeadamente o aumento da criminalidade, da insegurança e da pobreza. Qual é o papel da CMS enquanto solução?
Hoje a população cabo-verdiana tem a plena consciência de que matérias como insegurança, pobreza e criminalidade devem ser objecto de políticas nacionais, que são atribuições do governo do país. Doze anos de poder do PAICV resumem-se, entre outros, na degradação social destes sectores. Isto é, o desemprego aumentou e, paralelamente, a pobreza e o fosso económico entre as diferentes classes sociais, a insegurança e, por fim, a criminalidade também aumentaram, em resultado da ausência de políticas sociais efectivas a nível nacional e com reflexos em cada município. Assim, o GIMCS, consciente da inoperância das propostas do PAICV nesta matéria e dentro da sua área de responsabilidade, fará todos os possíveis para reduzir os malefícios da ausência de políticas para estas áreas. Nomeadamente propõe-se a constituir a polícia/guarda municipal, continuar a extensão da iluminação pública, fazendo-a chegar à maioria da população através do seu projecto de infra-estruturação, e finalmente desenvolver projectos de apoio à instalação de pequenas empresas familiares que incentivem o empreendedorismo e o emprego na camada juvenil.
A habitação é quiçá o problema número-um da ilha, que oscila entre casas demasiado caras e bairros clandestinos que crescem a olhos vistos. Estou a referir-me às casas de lata de Terra Boa, Alto de Saco, Alto de Santa Cruz e Alto de São João. O que falhou?
O GIMCS foi pioneiro na apresentação de propostas claras em matéria de habitação de interesse social, num momento em que o país primava por total ausência de políticas e, mais grave, de compreensão do fenómeno. As habitações de lata foram resultado das políticas desenvolvimentistas do PAICV no Sal, sem qualquer articulação com o poder autárquico, naturalmente a entidade que necessariamente deverá enfrentar a questão. As nossas prioridades eram duas: a política da habitação e a infra-estruturação das cidades da ilha. Para a habitação, o GIMCS desenvolveu um programa de parceria público-privada, com empresas luso-caboverdianas, que tinha como objectivo construir 540 habitações de três tipologias e num valor global de 10 milhões de euros. O projecto Casa para Todos, todo ele desenvolvido nas ideias do GIMCS, veio condicionar o desenvolvimento do projecto no que respeita ao acesso ao financiamento, isto é, a banca nacional passou a considerar de alto risco todo o projecto de habitação por nós proposto. Entretanto, o programa de infra-estruturação das cidades teve a sua evolução normal e conseguiu capitalizar cerca de sete milhões de euros já totalmente investidos neste segundo mandato. Resumindo: tendo capitalizado os recursos para as infra-estruturas cuja realização é evidente, e não tendo o programa de habitação alcançado o financiamento necessário, não se realizou no espaço temporal previsto. Não significa isto que não será realizado na sua plenitude, no próximo mandato.
A SalHabit é a empresa municipal criada pela Câmara para resolver este problema, mas os seus resultados ficaram claramente aquém das expectativas. Porquê?
Remeto a questão da SalHabit à resposta anterior.
Foi contra a elevação de Santa Maria a cidade porque defende que é antes necessário criar condições para isso. Que investimentos foram feitos pela Câmara para o desenvolvimento das cidades do Sal?
Convido a autora da pergunta, provavelmente cabo-verdiana, jornalista e conhecedora da realidade cabo-verdiana, a fazer uma visita com olhos de ver à ilha do Sal. O pior cego é aquele que não quer ver.
Tendo em conta que entre os leitores deste jornal estão cabo-verdianos não residentes no Sal e mesmo salenses na diáspora que podem não estar a par do desenvolvimento das cidades do Sal, não receia que não compreendam a sua resposta: “o pior cego é o que não quer ver”?
Não, não tenho receio. Todo o cabo-verdiano no país ou no estrangeiro, interessado no desenvolvimento do país ou do seu município, conhece o GIMCS e suas realizações. Esta é a manifestação mais frequente que eu assisto nas minhas deslocações, a nível interno e externo, onde existem cabo-verdianos, salenses ou não.
Outro calcanhar-de-Aquiles da sua gestão é o saneamento. A lixeira a céu aberto logo à entrada da cidade de Santa Maria é um mau cartão-de-visita para os turistas que chegam à ilha. A empresa Sal Limpa, criada pela Câmara a que preside, parece navegar sob maus augúrios: não deu a resposta esperada, retirou emprego a vários chefes de família que trabalhavam no sector do saneamento da CMS. Para completar esse quadro de azares, o aterro sanitário projectado para durar anos, revelou-se um fiasco. O que falhou?
A pergunta demonstra a sua total ignorância em matéria de saneamento nesta ilha. O saneamento trata de resíduos sólidos domésticos e industriais. O GIMCS encontrou duas lixeiras a céu aberto implantadas pelo PAICV: uma em Fátima e outra em Espargos (Morrinho Carvão), todas antros de poluição ambiental inaceitáveis. Ambas foram encerradas e aberto um aterro sanitário, por sinal o único a funcionar a nível nacional, pondo fim a uma degradação ambiental evidente. Diferente é a lixeira de restos de construção em Fátima, uma vez mais resultante da política incongruente deste governo que, por um lado distribui ao desbarato milhares de hectares de terreno para a construção de resorts e de hotéis e, por outro, não disponibiliza ao município os recursos necessários para fazer face aos lixos produzidos pela sua própria política.
Ainda em relação ao saneamento – redes de esgoto, lixeiras, Sal Limpa – o candidato fala para todos os cabo-verdianos, os que apoiam a sua causa e os que reclamam do saneamento no Sal. Seremos todos ignorantes?
A resposta anterior foi clara e directamente dirigida a si, jornalista. Tenho em alta consideração todos os cabo-verdianos.
Não seria responsabilidade da equipa, a que até agora presidiu, resolver a questão do saneamento no Sal e não apontar a culpa apenas ao PAICV, de modo a evitar que o Sal continuasse a ter lixeiras a céu aberto?
Creio que continua a confundir o termo lixeira. Fátima é um depósito de restos de obras, resultado da venda intempestiva de milhares de hectares de terrenos por parte do Governo, enquadrado na sua política de turismo. Esta situação, como pode imaginar, exige um tratamento diferente. Impõe aquisição de equipamentos para o tratamento e a reutilização destes materiais e, naturalmente, o Governo tem responsabilidades claras nesta matéria. Já o saneamento, isto é, o tratamento dos resíduos sólidos das habitações, é da responsabilidade exclusiva do Município e está devidamente tratada. Queira fazer uma visita ao Sal.
Santa Maria, cidade turística muito importante para o país, é hoje considerada por muitos como uma cidade descaracterizada e desestruturada com crianças de rua pedindo esmolas aos turistas, vendedores ambulantes nas ruas apesar de ter um mercado recente. Também tem essa visão? Como pretende reverter esse quadro?
Este quadro, aliás bem caracterizado na pergunta que faz, reflecte a política deste governo. Peço às pessoas que analisem as principais urbes deste país, nomeadamente Praia, Mindelo, Assomada e São Filipe nestas matérias e apontemos as diferenças.
Os líderes do movimento que propõe a elevação de Santa Maria a município já ameaçaram votar em branco, ou simplesmente não votar, nas próximas eleições. Essa probabilidade inquieta-o?
Seguramente, não. Estamos na campanha eleitoral pela autarquia do Sal e é essa a nossa preocupação. Contudo, queremos aqui e agora afirmar que acompanhamos com toda a atenção a evolução desta situação. Este é um tema claramente para referendo local, no qual todo o salense deve pronunciar-se e o GIMCS não irá de jeito nenhum interferir e muito menos fazer campanha contra ou a favor.
Como médico, qual é o diagnóstico que faz do estado do sector de saúde na ilha do Sal?
Há oito anos que não exerço a minha actividade profissional. Contudo, enquanto presidente do município recebo diariamente preocupações nesta matéria. Considero que as atribuições municipais na saúde são insuficientes. Por isso o GIMCS propõe, como prioridade para o novo mandato, a elaboração urgente do Plano Estratégico da Saúde para o Município.

CABO VERDE



















