Autárquicas 2012

A SEMANA : Primeiro di?rio caboverdiano em linha

Eugénio Veiga “A vitória está ao nosso alcance” 21 Junho 2012

Eugénio Veiga é concorrente à Câmara Municipal de São Filipe pela sexta vez consecutiva, a primeira entretanto sem o suporte do partido que sempre o apoiou, o PAICV. Demonstrando confiança na vitória no dia 1 de Julho próximo, garante que a decisão de concorrer a um novo mandato como cabeça de lista do Grupo Independente Unidos para São Filipe Solidário e Desenvolvido (GIUSD) nada teve a ver com a pessoa de Luís Pires, mas com a forma como foi conduzido o processo de escolha do candidato tambarina. E, igual a si próprio, o decano dos autarcas cabo-verdianos afirma que a decisão de abandonar o PAICV não foi tomada de “ânimo leve”. Agora, o seu partido é São Filipe. E avisa: “Se este grupo não ganhar acontecerá um retrocesso no processo de desenvolvimento deste município”.

Entrevista: Nicolau Centeio Fotos: Celso Lobo

Eugénio Veiga “A vitória está ao nosso alcance”

– A Semana - Esteve à frente da CM de São Filipe nos últimos 20 anos. Que municipio temos hoje?

– Eugénio Veiga - Nestes anos, muitas coisas aconteceram em S. Filipe, nomeadamente a construção de muitas infra-estruturas e a melhoria das condições de vida dos residentes. Por isso, São Filipe de hoje é totalmente diferente do concelho de há vinte anos.

– Como vive hoje a população sanfilipense?

– A população de S. Filipe vive as mesmas dificuldades que o resto da população de Cabo Verde, mas grande parte dos habitantes do concelho tem uma qualidade de vida superior à media nacional nos domínios da energia, água, educação, etc.

– Que marcos importantes ressalta dos seus 20 anos de gestão na CMSF?

– Ressalto os processos de electrificação rural, de distribuição de água, o apoio aos alunos com transporte e propinas escolares, a massificação do ensino secundário. A cultura ganhou também muito com as festas do município, que passou a ser um cartaz de Cabo Verde e não apenas deste concelho.

– Que ambições tinha para São Filipe, e que não pôde concretizar?

– Grande parte do que era responsabilidade municipal foi cumprido e de uma maneira positiva. Mas a nossa ambição não era apenas concretizar aquilo que o município poderia fazer com recursos próprios, mas também com recursos do poder central, nomeadamente as obras do Porto de Vale dos Cavaleiros e do aeroporto. Este município merece um aeroporto internacional, uma rede de esgoto, um pólo universitário, para além de recursos hídricos numa quota mais elevada.   Ambições e constrangimentos   – E a sua marca?

– A minha marca está em todo o município, particularmente nas localidades e casas de São Filipe, onde hoje há energia eléctrica e água; nas comunidades que foram desencravadas, entre elas Campanas de Cima; e nas infra-estruturas desportivas espalhadas por todo o município. E também na cidade de São Filipe, a única cidade de Cabo Verde que cresce de forma

– Mas também persistem problemas e constrangimentos…

– Há constrangimentos em termos de habitação social. Apesar de todo o esforço feito, o parque habitacional ainda precisa de uma injecção forte, para que cada família possa ter uma habitação condigna. Também temos o problema de elevação da água até Campanas de Cima. Estas são as nossas metas para os próximos anos se vencermos as eleições do dia 1 de Julho.

– Uma das suas maiores reivindicações foi sempre um aeroporto internacional. Continua com o este objectivo para o Fogo?

– É um projecto estratégico que cria igualdade de oportunidades no tocante ao desenvolvimento turístico, cultural e económico. Por isso, continua a ser a minha reivindicação. Como faz parte da agenda do governo, com a internacionalização do aeroporto este município terá uma outra dinâmica e será uma mais-valia no processo de desenvolvimento da ilha e de Cabo Verde.

– A não construção do estádio municipal do III Congresso e do mercado Sucupira, bem como os conflitos com os proprietários de terrenos, são apontados como aspectos negativos da sua gestão. O que falhou?

– O estádio municipal do III Congresso e o mercado Sucupira estão em fase de construção. Quanto aos terrenos, eu penso que foi uma vitória estrondosa da instituição camarária, graças à teimosia de Eugénio Veiga, eu. Uma vitória que trouxe ganhos para São Filipe, porque confirmou-se que todo o terreno onde foi construída a estrada que dá acesso ao aeroporto é da instituição camarária. Os ganhos são evidentes em termos de parcelas de terreno, em Lém, III Congresso, no espaço que envolve o cemitério, para além de toda a orla marítima. Foi um ganho colectivo contra uma reivindicação injusta de pessoas que defendem interesses egoístas.

Momentos polémicos   – Mas durante a sua gestão a CMSF pagou mais de 400 mil contos em indemnizações por causa de processos laborais, e conflitos com proprietários de terrenos.

– Se o jornalista tem essas informações, gostaria também de tê-las. Mas garanto-lhe que a câmara nunca pagou 400 mil contos em indemnizações. – Mas essas indemnizações são do conhecimento público e foram decisões do Tribunal.

– Pagamos indemnizações, muitas delas injustas, como é o caso do então coveiro de São Lourenço, na sequência de um caso de profanação. Também pagamos indemnizações a funcionários que não pertenciam ao quadro da instituição camarária. São esses atropelos que, lamentavelmente, aconteceram durante a minha gestão.

– Qual é então o montante que a CMSF pagou em indemnizações durante todos os anos da sua gestão?

– Não tenho esses dados e nem preciso saber. Sei apenas que somos a única câmara em Cabo Verde que tem obras permanentes e que não recorreu a empréstimos bancários. E poderíamos ter feito muito mais se pudéssemos contar com a solidariedade de outras instituições.

– Que instituições?

– Todas as instituições sediadas na ilha, sobretudo o vosso jornal.... (risos).

– O sector de saneamento continua a ser muito contestado, particularmente a gestão dos resíduos sólidos. A incineradora, um investimento de cerca de 20 mil contos, nunca funcionou…

– Reconhecemos que foi um processo iniciado com as melhores das intenções. Funcionou e pode voltar a trabalhar a qualquer momento, mas entendemos que são precisos alguns acessórios para complementar esse empreendimento que é estratégico, útil, moderno e que existe em todos os países civilizados. Não é um investimento perdido porque, adquirindo os acessórios que faltam, poderá ser utilizada para a produção de energia eléctrica e gelo, além de uma série de outras actividades ligadas à incineração.

– A lixeira de “Cutelo de Açúcar” tem gerado alguma polémica e críticas, já que o lixo é queimado a céu aberto. Uma questão que ficou por resolver…

– A lixeira de Cutelo de Açúcar é provisória. E foi construída recentemente, até o equacionamento da incineradora.

– Elegeu o turismo como uma área estratégica do município. Que condições proporcionou a CMSF para que esse desiderato se cumprisse?

– É um sonho antigo. Hoje há mais capacidade de acolhimento em São Filipe, mas até a construção do aeroporto internacional seremos dependentes e teremos um turismo sempre mais caro do que o praticado nas outras ilhas. Sempre defendemos um turismo ecológico e de montanha, que pode propiciar condições para o crescimento económico.

– Foi muito criticado devido a algumas opções que tomou relativamente à conservação do património histórico de São Filipe, sobretudo por alterar parte do centro histórico da cidade, atitude que inclusive chegou a ser reprovada pelo Ministério da Cultura. As opções foram acauteladas?

– Duvido que o Ministério da Cultura estivesse vocacionado para aprovar ou reprovar a opção tomada na altura. Entendo que não devemos confundir o valor histórico arquitectural com um museu. A cidade de São Filipe é um tecido vivo e queremos que ela seja dinâmica e com identidade própria. São esses elementos fundamentais que devemos preservar e não deixar que as casas caiam e haja ruínas por toda a parte.   – Como foram as relações com o poder central nestes vinte anos de gestão autárquica?

– Foram relações normais como devem sempre existir entre as instituições.

– Como está a saúde financeira de S. Filipe?

– Continua dinâmica, robusta e cumprindo com as suas obrigações habituais.

– Também foi acusado de esbanjamento de dinheiro da Câmara para fins eleitoralistas. Não corre o risco de deixar a câmara de cofres vazios?

– Nós trabalhamos com responsabilidade, em todos os momentos, tanto nas épocas pré-eleitorais como nos períodos de governação, porque nós respeitamos o eleitorado, o que nos permitiu fazer cinco mandatos consecutivos. Não esbanjamos dinheiro nenhum com fins eleitoralistas, até porque desenvolvemos um trabalho sério e honesto. As provas estão espalhadas por todo o município.   Coerências e certezas   – Abandonou o PAICV, partido em que militou desde muito jovem e que ajudou, de certa forma, a solidificar a posição de vencedor incontestável nos embates políticos na ilha do Fogo. Esta decisão não lhe pesou?

 – Não abandonei o PAICV de ânimo leve. Foi uma decisão que nunca tinha pensado nem idealizado, mas foi imposta por aqueles que não tinham moral para fazer aquilo que fizeram no processo de escolha do candidato daquele partido às autárquicas em S. Filipe. Pedi a desvinculação do PAICV em nome da coerência, da dignidade dos sanfilipenses e, também, da responsabilidade no desempenho de atribuições que competem a um político.

– Diz que lhe foi imposta tal decisão. Por quem?

– Por aqueles que deveriam ter respeitado os estatutos e a função do presidente da Comissão Politica Regional, que tinha o papel de liderar todo o processo de escolha das candidaturas às autárquicas na ilha.   – A sua decisão de se recandidatar não tem a ver com o facto de ter sido Luís Pires o escolhido, e não outro candidato?

– Nada tenho contra a escolha de qualquer candidato do PAICV, mas contra o processo que ditou a escolha, foi mal gerido.

– Como passou a ser a relação entre Eugénio Veiga e os dirigentes do PAICV após a desvinculação?

– Continua a ser uma relação normal, da minha parte não há muita diferença. Relaciono-me com todos da mesma forma.

– É candidato independente às eleições autárquicas do próximo 1 de Julho. No entanto, anunciou que não iria se recandidatar e que qualquer um dos candidatos que se perfilava à sua sucessão, incluindo Luís Pires, era merecedor da sua simpatia. O que fez com que mudasse de opinião?

– Não mudei de opinião. Lembro-me perfeitamente de ter dito que na vida tudo tem um princípio e um fim. Falei que não me recandidataria, mas que continuaria a apoiar o processo autárquico na ilha do Fogo, fazendo com que as candidaturas do PAICV ganhassem as eleições. Mas assim não quiseram.   – Os seus críticos acusam-no de teimosia e dizem que com esta postura perdeu oportunidade de sair do PAICV “pela porta de frente”. Sente isso?

– Não sei. Para mim este é um assunto ultrapassado.

– Não está a ser incoerente ao se candidatar como independente, uma vez que nas eleições presidenciais foi um dos que mais criticou a candidatura independente que surgiu à revelia da decisão do PAICV?

– Eu nunca fui incoerente, mas sim coerente. Na altura defendi a decisão do partido, porque o processo se desenvolveu num quadro próprio, de acordo com o estatuto partidário. Por isso, tendo saído o resultado no Conselho Nacional do PAICV, obviamente que todos os três pré-candidatos às presidenciais e os militantes deveriam acatar. Deste modo, assumi e posicionei-me de uma forma clara e inequívoca a favor do partido. Se tivessem respeitado os princípios partidários e aquilo que o estatuto prevê na escolha do candidato do PAICV às autárquicas em S. Filipe, certamente posicionar-me-ia da mesma forma, tal como nas presidenciais. E com esta decisão de me candidatar como independente reafirmo a minha coerência e determinação pelo respeito das normas e dos princípios que devem ser implementados e cumpridos.

– Não receia que esta fragmentação do eleitorado tambarina possa enfraquecer o partido a que sempre pertenceu, contribuindo para uma vitória da candidatura do MpD neste concelho?

– Quando me disponibilizei para uma candidatura independente, disse logo que é para vencer. Estamos a trabalhar para isso e não para enfraquecer qualquer partido político, porque neste momento o nosso partido é São Filipe e os nossos militantes são os sanfilipenses.

– Quais as razões da sua recandidatura?

– Dignificar, salvaguardar a imagem dos sanfilipenses, consolidar os ganhos alcançados e projectar o município para um novo patamar de desenvolvimento.

– Disse, aquando da apresentação da sua candidatura, que se o GIUSD não ganhar as próximas eleições será um desastre para São Filipe. Em quê sustenta esta afirmação?

– Se o GIUSD não ganhar acontecerá um retrocesso no desenvolvimento de São Filipe. Basta ver que as outras candidaturas são dependentes do ponto de vista de pensamentos com um grande défice em termos de cultura e experiência de gestão autárquica e extremamente comprometidas com grupos e sectores. Bem diferente daquilo que é o projecto GIUSD, que é de co-responsabilização colectiva.

– Acha que pode vencer as outras duas candidaturas?

– O que estamos a constatar no terreno é um ambiente favorável, mais do que tínhamos inicialmente previsto. E tudo indica que a vitória está ao nosso alcance. Mas vamos continuar a trabalhar para que a mesma se confirme nas urnas no próximo 1 de Julho.

– Com que equipa se apresenta para gerir os novos desafios de São Filipe?

– Uma equipa jovem, com novas visões, atitudes e aspirações. E tudo nos leva a crer que emergirão seguramente novas lideranças políticas neste concelho.

– Se a sua equipa é jovem e sem experiência política, isso não poderá afectar o sucesso da vossa campanha?

– Não vai afectar em nada, porque para além de ser uma equipa maioritariamente jovem, também há no seio do grupo gente com experiência politica e de gestão autárquica. Mas o que ressalvo nesta equipa é a disponibilidade dos seus elementos, que se entregam totalmente às causas de São Filipe, sem se preocuparem com a sua posição nas listas, tampouco com os cargos que poderão assumir no futuro.

– Que dinâmica diferente pensa imprimir ao município com a lista apresentada?

– No primeiro mandato fomos lentos. Agora entramos na sexta velocidade e a dinâmica é diferente.

– Se o GIUSD ganhar as eleições estará disponível para negociações com as outras forças políticas?

– Já vivemos esta realidade no passado e nesta matéria temos uma vasta experiência. Trabalhamos com dois grupos e com governos de partidos diferentes e esta é uma das vantagens da minha candidatura em relação às outras.

– E se perderem, também estarão disponíveis para negociações?

– Estamos a trabalhar para ganhar.

– Como encara a candidatura de Júlio Andrade, que é apoiado pelo MpD?

– É uma candidatura apoiada por um partido político, por isso defende aquilo que o MpD defendeu ao longo dos anos para este município, o que não é nada positivo.

– E a candidatura do PAICV, liderada por Luís Pires?

– Não faço comentários.

– Há quem considere o GIUSD como uma candidatura inimiga do PAICV. Que comentário?

– Somos uma candidatura independente, inimiga do subdesenvolvimento, da estagnação do desenvolvimento económico e de qualquer processo que leve a um eventual retrocesso de São Filipe. É essa a inimizade que temos. Estamos trabalhando para o crescimento do município, para que haja consolidação dos ganhos e São Filipe consiga alcançar um novo patamar de desenvolvimento.

– Qual o maior desafio para tornar São Filipe mais competitivo, mais dinâmico e mais organizado? Como pensa concretizá-lo, caso seja eleito?

– Primeiro, reforçar o grau de competitividade e de interdependência de São Filipe com o território municipal das outras ilhas, o que passa necessariamente pela construção do aeroporto internacional. Pretendemos também mobilizar recursos hídricos a quotas mais elevadas, com o ordenamento das bacias hidrográficas. Vamos apostar firme nas energias renováveis e na construção de um pólo universitário em São Filipe. Fazendo isso, estaremos a criar condições favoráveis ao desenvolvimento do concelho. Queremos ainda criar a marca São Filipe, que inclui sectores como a cultura, o turismo, a agro-indústria. Aproveitando esses sectores, estaremos a promover iniciativas capazes de criar a marca Fogo. Finalmente, trabalharemos para reforçar a dignidade dos sanfilipenses, o que passa, naturalmente, pela consolidação dos ganhos nos sectores sociais, nomeadamente, educação, saúde, habitação.

100% Prático

publicidade






Mediateca
publicidade

Cap-vert

Uhau

Uhau
publicidade






publicidade





Newsletter