DESPORTO

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A humilhação desportiva de São Vicente 17 Junho 2012

No último campeonato nacional de futebol, ganho, com todo o mérito, pelo Club Sportivo Mindelense, de São Vicente, escrevi um artigo para agradecer o feito que muito significava para São Vicente e os sanvincentinos. De facto, foi uma vitória estrondosa conquistada com determinação, vontade, garra, ambição, além de todos os adjectivos que possam qualificar positivamente a conquista do campeonato nacional 2010/2011.

A  humilhação desportiva de São Vicente

Acreditei, na altura, que aquela vitória poderia significar uma mudança de atitude que contagiasse as outras modalidades desportivas, as forças vivas de São Vicente e o povo desta ilha. Chegara a hora de resgatar o nosso orgulho perdido no tempo, e colocar São Vicente na posição que merece no contexto nacional, pensei.

Hoje vejo que estava redondamente enganado. Aquela vitória significou apenas um momento alto no futebol de São Vicente, sem sustentabilidade que pudesse garantir a continuidade das vitórias. A prova disso foi a prestação mediocre dos dois representantes de São Vicente que foram afastados da prova, no caso do Mindelense, de forma humilhante diante do seu público. As duas equipas de São Vicente conseguiram fazer história pela negativa. Nunca aconteceu na história dos campeonatos nacionais o afastamento da equipa representante de São Vicente na fase de grupo. Mesmo no figurino anterior, a representante de São Vicente sempe esteve entre as quatro finalistas. Lembro-me da época em que o figurino era todos contra todos, e o Batuque necessitava de um empate para ganhar o campeonato nacional, mas acabou por ser derrotado nos últimos minutos pelo Sporting da Praia.

Foi simplesmente deprimente ver o clube que melhor representa São Vicente ser humilhado diante do seu público pela equipa adversária. E não há desculpa possível para explicar o desaire. O Mindelense foi incompetente técnica e tacticamente, sem ambição, sem atitude, e, pior, sem a noção da responsabilidade de estar a representar a ilha de São Vicente no campeonato nacional. Isso é imperdoável, pois não admito, enquanto mindelense que vibra com as vitórias e os sucessos da ilha, e chora com as derrotas e insucessos da ilha, que um representante de São Vicente, seja a que nível for, não tenha ambição e a motivação, nos níveis máximos, para querer ser o primeiro. Quem não é capaz de assumir essa responsabilidade, não merece representar a ilha. Representar só por representar mais vale não participar.

E não estou a falar apenas da equipa técnica que, independentemente das discutíveis opções tácticas, não foi capaz de transmitir a motivação necessária aos jogadores quando dela mais necessitavam. Lembro-me do meu amigo Almara (técnico principal) ter permanecido impávido e sereno no banco durante cerca de cinco minutos após o árbitro ter apitado para o intervalo. Estávamos a perder, era preciso inverter a situação nos primeiros 15 minutos da segunda parte. Alguém tinha de motivar os jogadores. Alguém tinha de pedir aos jogadores mais empenho. Alguém tinha de pedir mais determinação. Alguém tinha de lhes dizer que estavam a jogar sem objectividade. Enfim, necessitavam de uma injecção de motivação e de um líder que lhes indicasse o caminho da vitória. Só o treinador era capaz de fazer isso. E parece-me que Almara, com todo o respeito que tenho pelo amigo e colega da bola, não esteve à altura daquele momento. Nessa altura veio-me à memória o nosso saudoso Tchida. Certamente, pensei, Tchida reagiria diferente diante daquele cenário e das necessidades da equipa.

Também os dirigentes não estão isentos de culpa. Penso que prescindir, em troca de alguma contrapartida, de jogadores nucleares da equipa que venceu o campeonato nacional 2010/2011, não foi uma opção inteligente. Falo do Vozinha (guarda-redes), Vady (defesa-central), do Duba (avançado), aliado ao azar da lesão do Fufura ( avançado ). Com esta atitude a Direcção do Club não permitiu que fosse consolidada a geração de campeões e, consequentemente, a passagem do testemunho para outras gerações. Não priorizaram os interesses desportivos do Club.

Finalmente os jogadores que, do meu ponto de vista, foram os principais responsáveis pela derrota. Não dignificaram o clube e a ilha de São Vicente. Não fizeram tudo para ganhar o jogo. Via-se claramente que a equipa adversária adoptou como estratégia – para defender bem a sua baliza e explorar o contra-ataque. Uma estratégia incompreensível, se levarmos em linha de conta que o empate não lhes servia. E o Mindelense, cujo empate era suficiente para passar à eliminatória seguinte, assumiu precipitadamente todos os riscos do jogo, desguarnecendo, naturalmente, a sua linha defensiva, dando oportunidades à equipa adversária para contra‑ataques fatais. É claro que era preciso marcar um golo para tranquilizar a equipa, mas eram também precisas paciência e inteligência, o que nos faltou em absoluto.

O futebol sanvicentino está de luto, pois pela primeira vez na sua história, não consegue passar a fase de grupo do campeonato nacional. E quem ama esta ilha tal como eu, e sente na alma os seus insucessos não pode ficar indiferente diante desta triste realidade. Por isso, convido os dirigentes, técnicos, jogadores e amantes da modalidade, para uma reflexão séria e profunda sobre o desporto rei em São Vicente, sob pena de se perder a oportunidade para inverter a situação.

Assim como está não está bem. Por amor a São Vicente.

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