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Delinquentes arrependidos pedem uma segunda chance: Quando o crime não compensa 18 Abril 2012

Perdas. É tudo o que os 20 jovens do 100% Cova herdaram dos confrontos com outros gangs de São Vicente. Perderam não só amigos mas também a liberdade de circular na ilha que os viu nascer. São prisioneiros dentro da sua própria comunidade – neste caso, Monte Sossego. Marcados pela Polícia, confessam-se saturados de tanta discriminação da sociedade mindelense. E admitem que a delinquência não os leva a lado nenhum. Por isso, pedem uma chance, uma mão amiga capaz de os ajudar a sair deste labirinto.

Delinquentes arrependidos pedem uma segunda chance: Quando o crime não compensa

Três jovens do grupo contam a sua experiencia

“Circular sozinho fora da Cova? Nem pensar! Só se for em grupo, caso contrário seremos atacados por rivais. Mas já estamos cansados desta vida! Queremos um trabalho ou qualquer coisa para ocupar a mente e nos ajudar a sair desta vida”, dizem ao A Semana numa só voz os membros do grupo “100%”, Cova de Monte Sossego. Kevin Gomes, 20 anos, Anísio Gomes, 18, e Helton Silva, 21 anos, são os rostos mais visíveis desta vontade de mudar.

Não sabem dizer ao certo como começaram as brigas com os grupos rivais. Alguns afirmam que surgiram nas matinés. Outros alegam que, fartos de sofrer abusos de jovens de outras zonas, decidiram passar a vingar as ofensas. Mas o “100% Cova” nasceu com o objectivo de realizar actividades recreativas na zona, diz Kevin Gomes.

“Criámos o grupo para nos divertirmos. Por azar, quando saíamos, acabávamos por entrar em brigas. Os conflitos surgiam nas matinés, mas continuavam nas ruas. Os rapazes da nossa zona que saíam à procura de trabalho eram agredidos por elementos de outros grupos. Porque somos todos amigos de infância, juntámo-nos para nos defendermos uns aos outros”, conta Kevin Gomes. “Mas já não queremos guerras. Queremos uma vida melhor para nós e para a comunidade da Cova”, declara o jovem que vive com a mãe, desempregada, e cinco irmãos. Quanto ao pai, não o conheceu.

Kevin Gomes só estudou até o 4º ano do ensino primário, mas ainda assim o seu maior desejo é conseguir um emprego para ajudar a família e a si próprio. É que não quer mais ser visto como um delinquente, quer deixar de vez a vida de “gang”. Quer apenas circular livremente pela sua cidade, Mindelo.

“Peço desculpas a todos que magoei. Peço desculpas em nome dos meus amigos também. Já não quero esta vida, quero viver em paz e ter um trabalho. Estou a lutar para conseguir um trabalho e assim poder ajudar a minha mãe”, diz Kevin Gomes esperançoso de que um dia o filho terá uma vida “melhor”: “Não quero que ele tenha a vida que eu tive”, desabafa.

Anísio Gomes, irmão de Kevin, também pertence ao 100% Cova. No início não fazia parte do grupo, apenas “dava com eles umas voltas” aos fins-de-semana. Mas decidiu integrar o bando quando começou a ser atacado por outros grupos.

“Já fui conduzido à esquadra para identificação, mas nunca fui preso. Decidi mudar de vida e agora preciso de um “help” da sociedade para continuar em frente e ter um futuro melhor. Inscrevi-me numa formação de Combate ao Incêndio no IEFP, espero agora ser chamado. Basta-me um trabalho para a minha vida mudar completamente, pois sei que a partir dessa altura não terei mais chances de pensar nas brigas e poderei ajudar a minha mãe que está sempre doente”, acredita o jovem que possui apenas o 6º ano do EBI.

Helton Silva também é membro do “100% Cova”. O jovem, que mora com a mãe, o padrasto e a irmã, conta: “muitos de nós já fomos espancados por elementos de outros grupos, o que nos revoltou. Até perdemos um amigo. Decidimos então fundar um gang para nos vingarmos”. A decisão de entrar no grupo foi livre, confessa: “Entrei porque quis. Ninguém me obrigou. Entrei porque outros grupos fizeram-me muito mal e queria vingar-me”. Mas agora, diz, ele e os colegas do “100% Cova” querem uma nova vida e a liberdade de andar pelas ruas sem que alguém lhes aponte o dedo.

Uma mão amiga

A mudança de Kevin, Anísio, Helton e colegas é também fruto do trabalho da Associação Jovens Unidos da Cova, constituída por 18 mulheres. Fartas de verem a sua comunidade estigmatizada pela sociedade mindelense, essas mulheres, algumas delas parentes dos elementos do “100% Cova”, juntaram-se para mudar a imagem do bairro que é considerado um dos mais críticos da cidade do Mindelo.

“Criámos a associação porque a nossa zona estava a ir pelo caminho errado. A imagem que as pessoas têm daqui não corresponde totalmente à realidade. Por isso queremos mudar esse paradigma”, declara Vanina Monteiro, presidente de mesa da AJUC. “Temos várias famílias monoparentais na Cova e muitas crianças – que ficam sozinhas quando a mãe sai para trabalhar – faltam às aulas. Não queremos que sigam o exemplo dos jovens, por isso vamos acompanhá-las”, afirma Vanina Monteiro.

Ajudar os rapazes a arranjar um emprego ou um curso de formação profissional é o objectivo da AJUC. “Só assim vamos conseguir mudar o rumo da nossa comunidade. Graças a Deus, os rapazes estão mais calmos”, afiança a dirigente da AJUC.

Esta é uma iniciativa que vai no sentido de resgatar o papel social e educativo que a mulher tem na sociedade. É um desafio a que as mulheres estão a responder após o apelo lançado por várias entidades, opina Marie Louise, delegada da Organização das Mulheres de Cabo Verde (OMCV) em São Vicente.

“É uma iniciativa extremamente boa, sobretudo porque as mulheres constataram que só através da união podem ajudar a sua comunidade. Juntas podem chegar mais longe e ter acesso a vários apoios”, acredita Louise. E no caso deste bairro periférico, Cova, onde várias são as famílias lideradas por mulheres, estas têm sobre si uma grande responsabilidade na transmissão dos valores.

“O fenómeno dos gangs é um problema social que deve ser analisado dentro da família. A mulher é naturalmente mais sensível e perspicaz do que o homem e sabe que tem a responsabilidade social de educar os filhos. Portanto, as mães devem ter auto-estima para serem capazes de apontar bons caminhos aos filhos”, considera a delegada da OMCV, que também aconselha cada mulher a ser mais responsável e a planear melhor os filhos que põe no mundo.

Gente que não existe

A inclusão e reinserção social é apontada pela psicóloga do Centro da Juventude de São Vicente, Maria do Carmo, como a única alternativa viável para estes jovens. Por isso o CEJ, em parceria com o Centro de Emprego do Mindelo, pretende oferecer a esses jovens cursos profissionalizantes, enquadrados no programa “Bo Ki ta disidi”, do Ministério da Juventude.

“Temos duas formações ligadas à área do Mar com uma taxa de saída de emprego muito favorável: Marinha Mercante, e Técnicas de Transformação de Pescado. Estamos a mobilizar recursos para inserir os jovens nessa formação e pagar as suas propinas. Depois encaminharemos esses jovens para o mercado de trabalho”, informa a psicóloga. Esses formandos vão também poder obter a sua carta de condução, oferecida no âmbito do programa.

Contudo, salta à vista a marginalidade para onde a sociedade e os próprios poderes públicos atiraram esses cidadãos cabo-verdianos, desde o momento em que nasceram. Não contam nas estatísticas, nunca tiveram um documento de identificação civil, pura e simplesmente não existem. Não têm Bilhete de identidade, muitos sequer estão registados. Da escola nem falar. “Residem na Cova muitos jovens com baixa escolaridade e que não têm possibilidade de conseguir uma formação de Nível I. Alguns têm apenas a 6ª classe, outros nem isso”, conta desolada a psicóloga.

Diante disto, Maria do Carmo diz que está a “motivá-los para se matricularem no Centro Concelhio de Alfabetização de Adultos no próximo ano, a fim de concluírem o ensino primário e assim terem condições para, pelo menos, tirar uma Cédula de Pescador”.

Igreja: Válvula de escape

A par do Centro da Juventude do Mindelo (CEJ) e da Associação Jovens Unidos da Cova, instituições religiosas também têm ajudado esses rapazes a mudar de vida. Baseado no espírito de cooperação, a Paróquia de São Vicente e as igrejas do Nazareno e Adventista vão levando aos jovens palavras de fé, consolo e autoconfiança, para ajudá-los a encontrar soluções para os seus problemas.

Para o Padre José Maria, responsável pela Paróquia de São Vicente, “o fenómeno dos gangs é recente e tem sido uma preocupação para nós. E através do Secretariado da Juventude, constituído por jovens universitários que fazem teatro, carnaval e música, procuramos ajudar esses grupos, ensinando-lhes os valores da cidadania”.

E se há quem encare esses jovens como delinquentes inveterados, o padre José Maria, pelo contrário, acredita num futuro melhor para eles. “Vejo ali muita vitalidade. O grande desafio é, por isso, fazê-los tirar todo o partido das suas potencialidades e da criatividade que a juventude habitualmente tem. E na Cova haverá muitos jovens talentos que podem ser aproveitados. Só precisam de gente capaz de investir todas as suas energias numa missao que vale a pena”, avalia o pároco.

Além disso, a evangelização poderá funcionar como uma válvula de escape ou uma mão para “levantar os que estão caídos à beira do Caminho”, diz o Padre José Maria, que confessa sentir-se desafiado a ir atrás dessa realidade para mostrar aos gangs que “todos temos a mesma sede e queremos fazer o voo da águia”. Contudo, acrescenta, “a evangelização tem que ser prudente e aliciante para que o jovem não a entenda como um roubo de tempo”, acrescenta o pároco para quem “a mensagem de Jesus Cristo deve ser passada por alguém que é também um portador da felicidade”.

A Igreja do Nazareno também está preocupada com o fenómeno dos gangs. Por isso tem-se associado a parceiros sociais na busca de soluções não só para esses jovens em situação de risco como também para seus familiares. “Fazemos aconselhamento pastoral, mostrando para esses jovens as consequências da violência. Também organizamos actividades desportivas e recreativas como saraus e jogos como forma de atraí-los para actividades mais nobres e saudáveis”, explica Fernando Sousa. Este Pastor da Igreja do Nazareno em Ribeirinha, também fala do programa “Hora Jovem”, onde debatem temas como violência e toxicodependência.

Promover a reintegração familiar e mediar conflitos é outra missão desta igreja. “Através do Pastor, a Igreja do Nazareno funciona como intermediária na resolução de conflitos entre os jovens. Também ajudamos ainda na sua reintegração familiar”, explica Fernando Sousa, ministro de fé. E “para aqueles que possuem um certo grau de escolaridade, tentamos arranjar cursos profissionalizantes e postos de trabalho”, acrescenta.

Também a Igreja Adventista no Mindelo estende a mão a esses deserdados da sorte, ajuda com cestas básicas e apoio psicológico e espiritual. “Temos apoiado muitos jovens e pessoas carenciadas com cestas básicas. Teremos todo o prazer em dar também ajuda espiritual e psicológica aos jovens da Cova”, diz Joaquim Tango, pastor da Igreja Adventista, que vai por isso convocar uma reunião dos seus membros para analisar as necessidades primárias desses jovens.

“Primeiro devemos estimulá-los a manter esta decisão de recomeçar e apoiá-los para que não se sintam sós. Mas devemos também estender-lhes a mão para minimizar as suas necessidades”, afirma o pastor Tango. Mas para isso estas igrejas empenhadas em prestar auxílio a tais jovens problemáticos, têm de ter um centro de acolhimento, queixam-se todas.

Marcados pela Polícia

Apesar de se mostrarem arrependidos e muito dispostos a mudar de vida, esses jovens dizem-se marcados pela Polícia. Contam que mesmo sem cometer delitos, são frequentemente revistados, conduzidos à esquadra e espancados por elementos da Brigada Anti-Crime (BAC) da Polícia Nacional.

“A polícia não nos ajuda. Quando nos encontram nas ruas, os agentes revistam-nos e levam-nos para a esquadra para nos baterem sem termos feito absolutamente nada. Se nos escondemos, dizem que fizemos algo de errado. Mas se ficarmos parados, batem-nos. Somos marcados pela Polícia porque acham que na Cova só há delinquentes”, criticam em uníssono.

Roberto Fernandes, chefe da Brigada Anti-Crime (BAC) da Polícia Nacional, refuta as acusações de que a sua corporação trabalha à margem da lei. “E se alguém vir os seus direitos violados pela BAC deve dirigir-se a uma esquadra da Policia, à PJ ou à Procuradoria da República para fazer a denúncia. Da nossa parte, faremos um inquérito interno e adoptaremos medidas disciplinares se provadas as acusações”, diz Fernandes para quem as actuações da BAC respeitam todos os princípios legais.

Entretanto, o chefe da BAC esclarece: “Não revistamos apenas o pessoal da Cova, mas todas as pessoas suspeitas. Se não há necessidade de conduzi-los à esquadra, não o faremos”, declara Roberto Fernandes, recordando que há bem pouco tempo o historial daquela zona era mau, inclusive com casos de morte. Mas hoje, garante, é diferente. “Há muito tempo que não trazemos o pessoal da Cova para a esquadra porque o seu comportamento mudou”.

É que a PN - São Vicente, além de actuar na prevenção e repreensão, também faz um trabalho pedagógico. “Se optaram por seguir outros caminhos isto deve-se em parte ao trabalho da Polícia Nacional, que abraçou a iniciativa do Frei Silvino de promover acordos de paz e encontros de confraternização entre esses grupos”, finaliza Roberto Fernandes, para quem a mudança de estilo de vida não acontece de uma hora para outra, ela é progressiva e, portanto, deve merecer acompanhamento da Polícia.

Os Gangs do Mindelo

A história de vida desses três rapazes assemelha-se a de outros jovens da cidade do Mindelo, também pertencentes a grupos de “gangs”. São jovens, a maioria rapazes, entre os 14 e os 30 anos que, mergulhados num mundo de ficção, cultivam o ódio, a vingança e deixam fugir-lhes as oportunidades por entre os dedos. Dados fornecidos pela Polícia Nacional apontam que na ilha de São Vicente existem 11 gangs activos que estão distribuídos pelos bairros periféricos do Mindelo.

Kebrada (Bela Vista), 100% Cova (Monte Sossego), BBH - Black Brothers Hut (Fernando Pó/Ribeira de Craquinha), Black Enemy (Bela Vista), Oi Brumedje (Bela Vista/Pedreira), Grupo d’Ti Lis (Fonte Francês), Pintchá Andor (Ilha da Madeira), RB (Ribeirinha Trás de Cadeia), Tchétchénia (Ribeirinha, Chã de Faneco), Campim (Campim) e Gang Dzarent, que tem a particularidade de ser constituído apenas por mulheres (Ilha da Madeira). Alguns desses bandos possuem membros voláteis, que costumam migrar de um para outro grupo.

Além dos citados, constam da lista da PN outros grupos que, entretanto, já foram desactivados, entre eles os grupos de Chã de Alecrim, Madeiralzinho, Covada de Monte Sossego e Delete, da Ribeira de Craquinha.

Este fenómeno “gang” é associado ao terror na sociedade mindelense, que os associa ao “Kasubodi”, vandalismo, distúrbios e assassinatos. Aliás, não sãopoucos os confrontos mortais protagonizados por esses grupos rivais. Mortes, muitas vezes, com requintes de malvadez.

Antes da criação da Brigada Anti Crime (BAC), diz Roberto Fernandes, cada semana era habitual a Polícia Nacional chegar a conduzir entre 50 a 60 jovens de grupos rivais para identificação. Um número que caiu com as operações conjuntas das unidades especiais BAC, Piquet e Intervenção. Neste momento essas incursões da polícia no submundo do crime acontece sobretudo aos fins-de-semana.

Carina David

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