POLÍTICA

A SEMANA : Primeiro di?rio caboverdiano em linha

Miguel Sousa, activista do MpD, responsabiliza Carlos Veiga pela derrota 15 Fevereiro 2011

Activista influente do MpD na Europa e deputado do partido na legislatura que agora termina, Miguel Sousa responsabiliza Carlos Veiga pela derrota do partido nas últimas eleições. Em um post publicado no seu blog, que recuperamos aqui, Sousa escreve que “a saída de Carlos Veiga da liderança do MpD deve ser considerada exigência democrática interna, sendo uma questão de dignidade política e bom senso".

Miguel Sousa, activista do MpD, responsabiliza Carlos Veiga pela derrota

"Perdemos as eleições de 6 de Fevereiro. Os resultados provisórios indicam que o PAICV as venceu com a maioria absoluta dos votos expressos e ganhou em dez dos treze círculos eleitorais. Esse partido elegeu cerca de 38 deputados, contra 32 do MpD e 2 da UCID. O MpD, que teria vencido as eleições autárquicas de 2008, perdeu agora as legislativas de forma humilhante, em face da estratégia adoptada.

A presidencialização e a personificação da campanha, as omissões tácticas e o silêncio cúmplice de certos dirigentes, com responsabilidades no MpD, quando no terreno o partido era dividido, revelaram-se desastrosas e nefastas para o partido. De quem é a responsabilidade, pergunta-se. Tais estratégias não renderam votos – como se diz. Foi erro de oportunidade, pelo que a culpa não pode morrer solteira, apenas por se tratar de Carlos Veiga. O erro pode alastrar-se à medida que Carlos Veiga vá continuando a ocupar a cadeira de presidente do MpD. A sua saída da liderança do MPD deve ser, por isso, vista e considerada como uma necessidade. Não se deve ficar pelo reconhecer dos resultados, sobretudo nas actuais circunstâncias. É também importante que se tirem conclusões políticas de que a estratégia adoptada falhou e uma das conclusões óbvias a tirar deve ser a que suscita a demissão do cargo de liderança do partido.

O MpD começou a perder estas eleições desde que Carlos Veiga decidira avançar, da forma como avançou, para a tomada da liderança do MpD a Jorge Santos. Todas as sondagens o diziam. Mas como nenhum dirigente do partido poderia dizer nada, a estratégia passou incólume e depois deu no que deu. Nesta campanha o MpD simplesmente não existiu (nem site próprio teve direito, existiu http://www.carlosveiga2011.com).

Fez-se uma campanha tímida, fundada numa visão de protestos sistematizados, que se deslizava em cima de uma linha de rumo que o Paicv melhor domina(a edição do gratuito JÁ e do seu conteúdo é exemplo disso). Em democracia ninguém tem o direito de reivindicar o poder, por que não há direitos políticos aprioristicamente estabelecidos. Quem decide é o povo, por isso há que somar porque todos os votos contam. A regra de ouro é conquistar, seduzir e convencer o povo a votar em nós. "Mesti Muda" afinal não tinha conteúdo programático e nem marquitelógico ajustados às exigências de combate político contra o Paicv. Não reflectia nenhuma causa, em concreto e nem se quer estava alinhada com a plataforma eleitoral do partido. Basta lermos a plataforma eleitoral, para concluirmos que o veículo "Mesti Muda" foi um mau veículo: parece ter sido um palavreado da música de intervenção, retirado de um qualquer dicionário, mas vazio em termos de conteúdo-implícito da plataforma eleitoral.

Nesta campanha, existiu uma ideia de fundo de presidencialização do partido (logo do regime), onde os principais dirigentes não puderam participar de alma e coração na campanha, porque foram rejeitados, desrespeitados e substituídos por órgãos paralelos, muitas vezes por pessoas que nunca fizeram política, que não são membros do MpD e que, enquanto membros da sociedade civil, se batiam, fazendo fretes, muitas vezes ao governo do Paicv e contra os interesses do partido. Podemos citar vários casos de pessoas que apareceram agora e que escreviam, por encomendas, artigos a "lá carte" e que de repente surgirem no topo do partido, sem que se tenham feitos quaisquer percursos. Talvez, por isso, Carlos Veiga decidiu premia-las e fazer caça às bruxas aos dirigentes que eventualmente poderiam opor a tal estratégia. Quem discordasse do regresso do Veiga à liderança do MpD foi antes perseguido e depois afastado, em primeiro lugar por tentativa de silenciamento cúmplice e de intrigas palacianas e, em segundo lugar, afastados mesmos da possibilidade de se candidatarem a cargos como, por exemplo, os de deputado nacional. Nesta campanha existiu um sistema/MpD que importa mudar. Há que relembrar sempre, o poder pertence ao povo. O mérito é sal da democracia e o MpD deve ser, antes de tudo e também, um partido dos seus militantes.

Subsiste o facto de que o problema fundamental do MpD é ausência da democracia interna, minada pela falta de transparência nas decisões e por uma profunda instabilidade dos seus órgãos e entre os seus membros, pela ausência de regras, formas e alternativas de decisão, quando colocado perante necessidade de orientações estratégicas. O MpD não pode continuar a não saber pensar, a não saber conservar a sua experiência e a não saber projectar a sua força (a sua principal força) quando em confronto com o Paicv. Para isso, importa que os seus órgãos eleitos em Convenção (a DN) sejam respeitados. Há que mudar. Não podemos continuar assim.

Importa, por outro lado, dizer que não há ninguém no MpD que não seja pela renovação e pela abertura do partido à sociedade civil, mas numa lógica de soma positiva e de respeito mútuo de todos e nunca numa lógica de exclusão de partes ou enquanto expedientes convenientes para o afastamento de uns e promoção de outros, mormente de dirigentes mais incómodos e sua mera substituição por pessoas que não são militantes. Quando isso normalmente acontece num partido, não se trata de inserção da sociedade civil, lato senso, mas sim do recrutamento de cristãos-novos, porque estes, sim, por causa dos lugares, estão disponíveis para participarem nas íntegras, nos golpes e fraudes internos para atingirem os seus objectivos.

O MpD deve levantar a cabeça e olhar para o futuro: veja-se que nenhum dos actuais membros da Comissão Política conseguiu ganhar eleições nos círculos eleitorais onde tinham responsabilidades directas, por que completamente abafados e sem credibilidade e capacidade de liderança. Tratou-se de uma desordem interna do sistema/MpD que importa pôr cobro. Santiago Sul, Santiago Norte, Santo Antão e S. Vicente são os casos paradigmáticos. E pergunta-se porquê? De Carlos Veiga que não é de certeza. É dos outros. Dos conselheiros etc...Veja-se a situação da participação dos deputados, completamente ignorados e porquê?. Quando analisados os resultados eleitorais, verificamos que as abstenções, os votos nulos e brancos parecem ter todas origem nos eleitores do MpD, pois que os militantes do Paicv foram todos votar e votaram em massa: basta compararmos o número de votos obtidos nas autárquicas de 2008 e os conseguidos nestas eleições.

Recuperamos deputados na América e em África por causa da estratégia definida por causa do trabalho desenvolvido ao longo da legislatura que agora termina. Tudo foi feito para que o MpD não continuasse a ser visto como partido contra os emigrantes e os resultados estão aí. Mas, apesar desses resultados positivos, o trabalho não foi reconhecido e o mérito foi ignorado. Citando o manual: "aquele que, em democracia, distorce a verdade do mérito, nega porventura a sua qualidade e quando se nega a qualidade em democracia, refuta-se a sua própria existência". Assim sendo, Veiga parece ter merecido perder estas eleições, porque não reconheceu mérito a ninguém e por isso deixou de mobilizar. Entrou com medo de vitória e por isso foi derrotado. Tão-pouco ele esteve coerente nas suas posições políticas de base e deixou-se menorizar-se por José Maria Neves aos olhos dos Cabo-verdianos e por isso, na minha opinião, perdeu argumento e legitimidade para, nestas circunstâncias, continuar à frente do MpD, sem recurso a uma nova eleição interna, onde até poderá ver renovado o seu mandato.

O MpD perdeu (segundo os resultados provisórios) por uma diferença de quase de 20 mil votos, tendo registado o menor número de votos que os obtidos nas eleições autarquias de 2008. Perdemos em todos os círculos no país, com excepção do Sal e do Maio, onde os presidentes de Câmara intervieram na campanha. Temos hoje mais 3 deputados que os conseguidos em 2006, graças à evolução positiva da imagem do partido na diáspora e na ilha do fogo. Foi uma vitória histórica do Paicv, que, desta forma, confirma que, em Cabo Verde, o ciclo político é de três legislaturas de cinco anos, na medida em que esta vitória alinha o país com o ciclo de 15 anos de partido único, por culpa directa de Carlos Veiga, que ainda vive aquilo que considerei, em tempos, a "síndrome de 2000", quando ele abandonou o governo, não compreendeu as virtualidades das maiorias qualificadas, demitiu ministros e perseguiu dirigentes e fundadores do MpD: (infelizmente há que dizê-lo e vai ser discurso dos saudosistas do regime de partido único: esta vitória do Paicv, em certa medida ameaça a própria democracia, porque confirma a tese de que o partido único foi um mal necessário, quando jamais poderia isso acontecer). É triste, mas pode afirmar-se como verdade histórica.

Afinal o regresso de Carlos Veiga à liderança do MpD revelou-se uma enorme falta de visão politica e de estratégia. (vemos hoje que é um acto de irresponsabilidade deixar andar as coisas para ver se acertamos, quando temos dados que nos dizem que um tal desejo dificilmente se concretizará) Tínhamos disso chamado atenção. Deixamos de ter um forte candidato para as eleições presidenciais para termos um fraquíssimo candidato a primeiro-ministro.

Há que pegar de novo no MpD e mudar-lhe o paradigma, conferindo-lhe credibilidade política interna e, sobretudo, externa e internacional, que deixou de ter junto dos principais parceiros externos de Cabo Verde e colocá-lo não ao serviço dos interesses de uma só pessoa ou de um grupo específico, mas sim ao serviço dos interesses do país. O MpD tem de mudar e tem de deixar de ser um movimento social amplo, para ser um partido político se quiser adoptar os paradigmas dos partidos do grupo PPE, e da IDC, até porque tem responsabilidades internacionais nesse domínio que decorrem do facto de estar a presidir o IDC África. Que exemplo internacional pretendemos dar?

Na forma como está jamais esse exemplo é conseguido e, com Carlos Veiga, o MpD entrou já num beco sem saídas. Fez-se agora o que Carlos Veiga sempre fez no passado, insistindo de forma pobre a confundir estratégias com estratagemas, onde o elemento crítico foi a instabilidade e a sina de cisão interna. Assim com receio de tudo e de todos, começou a subtrair, a excluir uns e a promover outros (os amigos de sempre), estilizando uma forma de fazer política onde reinam a perversidade de grupinhos, a promoção de políticos de cafés, a falta de sentido de estado, o cinismo e medo, a promoção do homem pequenino que passa a vida no sim senhor, no levar e no trazer e no diz-que-diz, na esperteza e criancice políticas, no truque de renovação e na chantagem, quando tínhamos pela frente o Paicv, um partido com mais 50 anos de história, estruturado, que luta e defende os seus militantes e os envolve de corpo e alma.

O MpD deve olhar para frente, mudar de paradigma, de liderança e de rumo, para poder ser transformado num partido político e essa mudança não é possível se continuarmos a fingir que tudo está bem, que nada terá acontecido. Temos de construir uma oposição de legislatura e não fragmentária. Assim sendo, demissão de Carlos Veiga da liderança do MpD é uma questão de bom senso e a consequente eleição de um novo líder deve ser encarada como uma exigência interna, por que clarifica e evita que aos olhos dos Cabo-verdianos, o MpD continue a ser visto como propriedade de Carlos Veiga, onde faz o que quiser, desrespeita a todos, por mais ilustres que sejam.

A continuar assim, o MpD tende a definhar-se no futuro: vai ver as eleições presidências fugir-lhes entre as mãos e poderá vir a conhecer uma hecatombe eleitoral nas próximas eleições autárquicas, se não mudar de paradigma, pois Carlos Veiga, perante dirigentes do MpD completamente desacreditados, age de forma deliberada, dizendo que não se vai embora da liderança do partido e fica para cumprir o mandato, até ao fim, colocando o MpD numa posição de clara fragilidade política e num plano inclinado.

Ele não pode socorrer-se da actual Comissão Politica para dizer que fica para cumprir o mandato de três anos, porque este órgão perdeu toda credibilidade política e tão pouco deve socorrer-se da Direcção Nacional. A direcção nacional não pode assegurá-lo, pois que este órgão foi plenamente desprezado, os seus membros desconsiderados. Basta aqui recordar um facto, como exemplo: os membros da Direcção Nacional do MpD tomaram conhecimento da plataforma eleitoral do partido, no dia em que esta foi apresentada ao público na Assembleia Nacional, ao que se pode especular que parece ter sido deliberada a estratégia para que o MpD perdesse estas eleições, a favor de uma estratégia ilustrada de presidencialização da campanha eleitoral, quando o que estava em jogo era o embate entre partidos e a eleição de deputados. As eleições presidências estiveram sempre como pano de fundo nesta campanha, mas ninguém deu por elas.

Agora e por causa disso, tudo está num silêncio fúnebre e as declarações oficiais revelam-se curtas: nem melodia fúnebre, nem foguetes casamenteiros. O MpD, enquanto partido, pode estar a correr o risco de se tornar numa força política, sem poder de influencia, no futuro, à semelhança do que aconteceu com a UNITA de Angola e a RENAMO de Moçambique, onde também como no MpD todos os lideres ou potencias lideres ou sempre que se despontar um politico que seja, corta-se-lhe a cabeça.

À semelhança do que aconteceu com os anteriores presidentes do MpD, Veiga deve pôr o seu cargo à disposição. Deve convocar a direcção nacional. Deve convocar a Convenção Nacional e restituir o partido aos seus militantes para que se encontre um novo líder. Este deve ser o caminho. No MpD é escola: o presidente que perder eleições deve abandonar o cargo. É também tradição no nosso partido: nenhum militante deve ter tratamento diferente do tratamento normal que a todos deve ser dispensado.

Por isso, o MpD tem de mudar de líder e de paradigma, se quiser servir o país e essa mudança não vai ser possível com Carlos Veiga na liderança. A sua saída insere-se num quadro de normalidade democrática interna e revela-se vital para o futuro do partido, sendo, por outro lado, questão de dignidade política e de senso comum".

Publicado por MIGUEL CRUZ SOUSA no blog www.olhofuturo.blogspot.com.

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