HISTÓRIA

A SEMANA : Primeiro di?rio caboverdiano em linha

CABO VERDE: VIAGEM PELA HISTÓRIA DAS ILHAS (continuação) 16 Outubro 2010

SAL – os espargos bravos

Na viagem à história das ilhas é lógico começarmos pelo Sal, afinal das contas ali fica o nosso mais conhecido e importante portão aéreo, em princípio quem chega deverá entrar pelo “Aeroporto Internacional Amilcar Cabral” como passou a chamar-se depois da independência. E merecidamente, deve ser dito, Cabral é uma personalidade que honra qualquer povo e o seu nome enobrece Cabo Verde. Ele foi o iniciador do partido que nos conduziu à independência, e certamente por causa disso é tido como o fundador da nossa nacionalidade, ainda que seja verdade que a nação caboverdiana já existia alguns séculos antes do seu nascimento. Mas é com orgulho que é lembrado pelo povo como um dos seus filhos mais ilustres e o dia do seu assassinato, 20 de Janeiro de 1972, foi escolhido e é consensualmente aceite como data de homenagem aos heróis nacionais.

Por: Germano Almeida

CABO VERDE: VIAGEM PELA HISTÓRIA DAS ILHAS (continuação)

A gente entra na ilha do Sal dos dias de hoje, no seu aeroporto que aos poucos vai ficando modernizado, nos seus magníficos hotéis com ar condicionado e pessoal rigorosamente fardado, nos restaurantes bem providos de toda a sorte de vitualhas importadas, e não imagina que há apenas 27 anos aquilo tudo era uma lástima, apenas um decrépito hotel chamado “Atlântico” na povoação dos Espargos e uma familiar pousada em Santa Maria.

Quanto mais para se lembrar que há 150 anos atrás a ilha era tão inóspita que chegou a funcionar toda ela como prisão, uma espécie de campo de concentração com o mar por limite, alguém que fosse condenado por qualquer crime grave era desterrado para o Sal e ali deixado às ordens de uma espécie de feitor e ao desespero de um inclemente sol de deserto. A ilha parece ter sido descoberta em 1460 por Antonio de Nola. Por causa da enorme planície que se via do mar e que muito contrastava com as ilhas já descobertas, Nola começou por dar-lhe o nome de ilha Lana ou Chã. Mas depressa modificaria aquela primeira designação, ao explorar a salina natural de Pedra de Lume. É que ele nunca tinha visto tanta abundança de sal acumulado, comparado, só com o gelo nos Alpes, disse admirado, todos os navios do mundo que ali chegassem poderiam carregar à sua vontade e mesmo assim o sal nunca acabaria.

Era de facto tão abundante e natural que a única conclusão a que Nola chegou foi que aquele sal se fazia a si mesmo “dentro daquela lagoa, caldeira, ou bacia de seis braças de profundidade, aberta pela natureza na chapada de um monte de 39,6 metros de altura acima do nível do mar, coalhando-se em sal a água das chuvas, que cai no centro, onde querem alguns que haja um olho de água salgada, que tempera a das chuvas”.

Até ao século XVIII a ilha Sal foi pouco conhecida e visitada. Um aventureiro francês de nome Dampier diz que ali esteve em 1683, mas confessa que prestou mais atenção a uns perturbantes flamingos que por lá havia do que aos habitantes, na verdade uns cinco ou seis homens e um pobre feitor com quem trocou cerca de 20 barricas de sal por algumas roupas velhas. Já o seu companheiro, o capitão Cowley, foi mais atento, registou ter visto na ilha quatro funcionários e um rapaz, incluíndo um feitor mulato. Eram todos negros, escreveu ele, mas se alguém os chamasse pretos, ficavam furiosos, dizendo que eram portugueses brancos.

De todo o modo, por volta do ano de 1720 a ilha já estava se não habitada, pelo menos com algumas pessoas. Pelo menos assim o atesta o capitão George Roberts no livro que escreveu sobre a sua viagem às ilhas das Canárias, Cabo Verde e dos Barbados: Chegámos de manhã à ilha do Sal e fui à terra na baleeira com seis homens armados, na baía chamada Palmeira, para ver o que ali havia. Ao chegar à terra, encontrámos algumas cabanas que estavam em bom estado e, pela erva que estava dentro delas, parecia que gente havia ali estado recentemente, talvez para apanhar tartarugas na última estação delas, ou homens dum navio encalhado ou lá deixados por qualquer outro acidente, como por exemplo, piratas.

No ano de 1808 a ilha do Sal começou a ser visitada por alguns habitantes da Boa Vista que passaram a servir-se dela como campo de pastagem do seu gado. Até que por volta de 1830 o empresário e conselheiro Manuel António Martins, homem empreendedor que tinha aportado à Boa Vista por via de um naufrágio e progrediu tanto que até chegou a ser governador de Cabo Verde nos anos 1834/35, decidiu explorar a salina natural encontrada por Nola situada no monte que já se chamava de Pedra Lume, “por causa das pederneiras ou sílex que ali aparecem”..

Para facilitar o escoamento do sal, Martins imaginou e levou a cabo a construção de um túnel perfurando o monte de um lado a outro. Porém, o sal natural dali extraído não era infelizmente de uma grande qualidade. Para tentar remediar as coisas Martins mandou ali mesmo preparar marinas artificiais, mas mesmo essas não melhoraram substancialmente o apuro do sal que ele desejava exportar. E acrescia, conforme escreve Désiré Bonnaffoux, que ele acabou por desanimar de conseguir elevar o sal das salinas de Pedra Lume porque, não obstante o túnel laboriosamente conquistado à rocha basáltica, continuava com dificuldades de conseguir transpor a ladeira da cratera ainda bastante funda. E nesse entretanto calhou que em 1833 alguém descobriu por mero acaso que o terreno próximo da povoação de Santa Maria produzia um belíssimo sal, o tal sal que Martins buscava.

Comprovado o facto, logo Martins abandonou as salinas de Pedra de Lume, que aliás viriam a ser aforadas ao seu filho Aniceto António Ferreira Martins em Abril de 1846, e apressou-se a ir buscar familiares seus e outras gentes à ilha da Boa Vista para empregar no fabrico do sal, “ocupando, por conta própria, grande parte do terreno salífero, que começou a trabalhar, reconhecendo, desde logo a importância desta nova exploração”. Inicialmente o sal era morosamente carregado em sacos. Para facilitar o seu transporte, em 1836 Martins importou da Inglaterra e fez assentar o primeiro caminho-de-ferro que existiu em território português e ligou a salina ao lugar do embarque do sal, com a novidade de as vagonetas serem puxadas por mulas ou então acionadas pelo vento através de velas desfraldadas.

Nessa época a ilha do Sal fazia parte do concelho da Boa Vista. No entanto, a exploração e exportação do sal, especialmente para o Brasil e América do Norte, fez o Governo ordenar em 1837 a instalação na ilha de uma alfândega e um governo militar. Porém, é bom dizer que essas medidas administrativas são em grande parte atribuídas à má vontade do governador Pereira Marinho para com o conselheiro Martins, seu inimigo declarado na questão do povoamento de S.Vicente, e que procedia no Sal como se a ilha lhe pertencesse de direito. E de facto, em 1839 o conselheiro acaba por pedir à Coroa o aforamento “por si e por seus correspondentes em Lisboa, Matheus da Silva Louro e José da Silva, 2 léguas e meia quadradas de terreno e areais em diversos pontos da ilha, comprehendendo os que já lhe estavam na posse”, escreve Botelho da Costa em 1882 em comunicação à Sociedade de Geografia de Lisboa.

Graças a essa concessão a ilha do Sal começou a crescer em população e em 1840 já tinha cerca de 400 habitantes, ainda que na maioria escravos. Em 1855 viria a ser administrativamente separada da Boa Vista, ficando a partir dessa data a ser governada por um administrador e uma comissão municipal. Já exportava por ano cerca de 6 mil moios de sal, mas nada produzia para consumo das suas gentes pelo que, tal como a Boa Vista, importava do estrangeiro, principalmente da América, todos as mercadorias e utensílios de que necessitava. De todo o modo, em 1856 achou-se oportuno criar na ilha uma Câmara Municipal para substituir a Comissão Municipal.

O Sal tem povoações como Palmeira e Pedra de Lume, mas sem dúvida que as mais importantes são Santa Maria e Espargo. A vila de Santa Maria é incontestavelmente uma criação do conselheiro Manuel António Martins. Basta dizer que quando ele ali chegou o lugar de tal modo não tinha nada, que funcionava como capela a câmara de uma galera que tinha naufragado e dado à costa, até que em 1857 se deu início à construção da igreja.

Após Martins a ilha passou por alguns momentos conturbados, incluindo uma revolta de escravos, ao que se dizia comandados pela sua viúva que viria a revelar-se uma verdadeira dama de ferro. Porém, em Maio de 1856 Sal foi atacada pelo escorbuto com tal intensidade, que a mortandade que começou a provocar fez com que grande parte da sua população fugisse para outras ilhas, muitos deles para S.Vicente como, por exemplo, as famílias Vera-Cruz e Sousa Machado. No final da doença, dos cerca de 1500 pessoas a população estava reduzida a 700.

Caídos em desgraça política e já economicamente depauperados, os herdeiros de Manuel António Martins começaram por associar-se em 1850 ao comendador António de Sousa Machado, genro do defunto e deputado às Cortes, dando origem à firma M.A.Martins & Sousa, sociedade que viria a ser judicialmente dissolvida em 1860. Em 1869 dois netos de Manuel Martins, os doutores António e João de Sousa Machado, criaram a firma Machados Irmãos, responsável pela edificação do bonito escritório de madeira sobre a ponte pertencente à família e também por eles reconstruída. Entretanto punha-se termo ao monopólio de exportação do sal pelos irmãos Machado, entrando também em serviço a firma Vera Cruz & Cª da propriedade do marido de uma das netas do conselheiro Martins. E foi nesse tempo que se descobriu sal em diversas partes da América Latina, o que fez com que a indústria da ilha decaísse consideravelmente por volta de 1884, tanto mais que o Brasil, um dos maiores consumidores do sal caboverdiano, tinha acabado por estabelecer pautas protecionistas como forma de desenvolver indústria similar no país.

De acordo com os apontamentos de Désiré Bonnaffoux, os herdeiros de Aniceto António Ferreira Martins acabaram por vender as suas explorações de Pedra de Lume a dois comerciantes, mas que também não tiveram melhor sorte na sua rentabilização. Razão por que estes igualmente viriam a vendê-las em 1919 à sociedade Salins du Cap Vert que iniciou uma intensiva exploração do sal, destinado à exportação para as colónias francesas e belgas da África.

Désiré Bonnaffoux, um culto e atento filho da ilha do Sal, não obstante a ascendência e o nome franceses, deixou uma preciosa descrição desse período intensivo: foi preciso construir alojamentos para duas centenas de trabalhadores, artífices, empregados e suas famílias, providenciar assistência sanitária, uma cantina, abastecimento de água potável, uma flotilha de lanchas e doca para as abrigar e carregar, oficinas mecânicas e carpintaria, uma central eléctrica, maquinaria para peneirar e pulverizar o sal... E também, invenção das invenções, um teleférico de 1100 metros de comprimento que transportava 25 toneladas de sal por hora desde as salinas de Pedra de Lume até ao cais de embarque, vencendo desse modo o que anos atrás tinha sido o calcanhar de Aquiles de Manuel António Martins na sua luta contra a cratera, a saber, conseguir dali elevar o sal.

Mas tudo isso implicando evidentemente grandes investimentos que deveriam ter como contrapartida a exportação de dezenas de milhares de toneladas de sal por ano. O que infelizmente não se verificava, pois que já havia muito sal espalhado pelo mundo. Pelo que a ilha continuou quase no seu rame rame, à espera de melhores dias. Que começariam a chegar com a instalação do aeroporto na localidade de Espargo, um planalto quase vazio que tirava o seu nome do facto de no tempo das chuvas ali nascerem grandes quantidades de espargo bravo.

Espargo surge cerca de cem anos depois de Santa Maria, quando algumas missões italianas fizeram diversas visitas às ilhas de Cabo Verde, com vista à escolha de um local para a implantação de um aeródromo destinado à escala de uma linha que propunham estabelecer entre a Itália e a América do Sul. Depois de avaliar algumas ilhas, nomeadamente a Boa Vista, acabaram por mais especialmente se interessar pela ilha do Sal, e passados 3 anos, desembarcaria o material destinado ao início das obras de construção do aeroporto: oficinas, central eléctrica, um posto de rádio, camiões... e também dirigentes, técnicos e operários que em menos de meia dúzia de meses montaram as edificações pré-fabricadas, prepararam uma pista, ainda que de terra batida, e instalaram diversos serviços: dois hangares para os aviões, oficina, rádio, meteorologia, armazéns, escritórios, hotel, locais de habitação, hospital – tudo isso numa planura na qual seis meses antes nem sequer havia um caminho de cabras...

No entanto, essa linha Roma-América do Sul apenas funcionaria até à entrada da Itália na guerra, em Maio de 1940, portanto só durante três ou quatro meses. Depois disso o aeroporto ficou imobilizado por todo o tempo que durou o conflito, findo o qual o governo português comprou a instalação ao governo italiano, introduziu-lhe melhoramentos consideráveis, como a construção de uma pista asfaltada de 2200 metros e procedeu à inauguração do realmente novo aeroporto no dia 15 de Maio de 1949, tendo como primeiro e principal cliente precisamente a linha italiana “Alitalia”.

Não obstante, durante muitos anos o Sal manteve-se apenas como um aeroporto perdido na desolação de um deserto castanho e confrangedor, um simples local de passagem que a brevidade das escalas não proporcionava a indução de qualquer outro tipo de desenvolvimento.

Porém, a independência nacional não lhe traria apenas a mudança de nome do aeroporto. Trouxe também a necessidade de se prestar uma maior atenção ao local que aos poucos foi sendo conhecido dos estrangeiros e rapidamente se começou a assistir a uma mudança na paisagem da ilha levando o Sal a entrar na senda do turismo onde navega de velas desfraldadas sobre grandes complexos hoteleiros, esperemos que rumo a bons portos.

galmeida@cvtelecom.cv, tel 322121;fax 324154, CP 300-S.Vicente - CABO VERDE

100% Prático

publicidade






Mediateca
publicidade


Cap-vert

Uhau

Uhau
publicidade











publicidade









Newsletter