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A SEMANA : Primeiro di?rio caboverdiano em linha

Beto Dias é… Totalmente di Bo” 04 Abril 2009

Beto Dias, o eterno menino de Tarrafal de Santiago, tem um novo disco no mercado. É “Totalmente di Bo”, em que Beto se apresenta mais maduro e com um repertório à altura do desejo dos seus fãs e dos gostos mais exigentes nesta que é uma nação da Música. Nesta entrevista o músico, e agora produtor do seu próprio trabalho, fala das dificuldades que teve de enfrentar para que hoje pudéssemos deliciar-nos com mais este CD. Mas Beto não desiste e já começa a correr atrás de outros sonhos. Eis, pois, Beto Dias “Totalmente di Bo”. Por: Gilvanete Chantre

Beto Dias é… Totalmente di Bo”

Kriolidadi - O quê “Totalmente di Bo” traz de novo e porquê este título?
Beto Dias - Foi um título que eu escolhi com a ajuda de alguns fãs. Dei quatro opções, o “Totalmente di bo” foi o mais votado e acabei por escolhê-lo. Esta música, que dá título ao álbum, fala de um amor que chegou na hora certa. Alguém que eu esperava há muito tempo e enquanto não chegava fez com que eu perdesse a noção de várias coisas… Mas sem desvalorizar a paixão…

É um disco que fiz com muita força, energia e com algumas dificuldades. Mas agora que cheguei ao fim, estou contente com o “Totalmente di Bo”. Antes, porque tive de fazer muita coisa sozinho, pensei que não conseguiria. Mas, em termos de estilo, é um CD que não se diferencia muito dos trabalhos anteriores. Afinal, cada um de nós segue um caminho e eu segui o meu. As pessoas já conhecem o estilo do Beto, se eu for buscar outro forçosamente estarei a imitar outra pessoa ou a tentar ser o que não sou. Por isso, prefiro continuar a ser o Beto que todo o mundo já conhece.

Neste caso, se fosses catalogar a música de Beto Dias como seria?
O que tenho feito até agora é uma mistura. Aos ritmos tradicionais, funaná, slows, que não são bem morna, junto influências de zouk love, cabo, etc. Isto tudo, posso dizer, dá a minha música.

Um artista mais comercial, é isso?
Eu não sei se é comercial, mas é o que tenho feito desde o começo da minha carreira, desde os tempos do conjunto “Rabelados”. Começámos com funaná e outros ritmos idênticos. Mas não sei se é comercial. Normalmente tudo vende, por isso este termo comercial é um pouco estranho. Ninguém produz para não vender.

As tuas músicas falam muito de amor, amor por Cabo Verde, pela tua mãe, pelas mulheres, da tua vida pela vida em si, etc. O que te inspira no sentido geral?
Falar de amor é mais fácil, porque é falar do que eu sinto: no sentido positivo, no negativo. Com muita alegria ou na mais profunda tristeza. Por exemplo, quando falo do meu amor por Cabo Verde é porque o país em si me inspira. Gosto de falar de tudo o que Cabo Verde representa para mim. Cabo Verde é uma das minhas principais fontes de inspiração. Agora, as músicas para a minha mãe tocam-me mais, as letras são mais profundas, porque é aquele amor incondicional. Um sentimento que tento tirar dentro de mi, apalpando as minhas entranhas enquanto criatura.

És mais influenciado pelos teus amores ou preferes cantar os teus desamores?
Quando estou num momento mais difícil, sinto-me com mais força para escrever. Mas claro que escrevo sobre o amor positivo, quando as coisas vão bem.

O repertório de “Totalmente di Bo” é todo teu?
Sim, as músicas são todas minhas. São 10 faixas, nove escrevi-as para este álbum. A última faixa, 10, “Conta Ku mi” é um “bónus track”.

E como foi o processo criativo de “Totalmente di Bo”: quem produziu os arranjos, as participações, etc. Quanto tempo o bolo demorou para sair do “forno”?
Levei aproximadamente 14 meses para fazer este trabalho. Na altura, quando comecei, pedi alguns apoios, busquei patrocinadores para me darem alguma ajuda. Uns disseram que sim, mas quando chegou a hora pediram-me para esperar, etc. Vendo o pé em que as coisas estavam, decidi partir para a luta e pegar na massa. Ou seja, tive de assumir a produção.

Mas nisso tudo não posso deixar de estranhar o facto de serem sempre os mesmos artistas a serem patrocinados. Pessoalmente, acho que devia haver mais justiça, embora tenha de reconhecer que cada um tem o direito de patrocinar quem bem entender. E quando isso acontece apenas tenho de respeitar a decisão deles. Mas é claro que fiquei um pouco triste. Quem sabe um dia, no futuro, talvez eu venha a ser contemplado com essa graça? A esperança não morre!

Então, o mecenas não apareceu?
Praticamente nenhum, apenas alguns, que também considero ‘patrocínio’, como a firma de publicidade que me ofereceu os ‘outdoors’ que estão nas ruas da cidade. Aliás, isso tem-me feito um bem enorme. Graças a isso, muitas pessoas tomaram conhecimento do CD, trataram de ouvi-lo e agora me ligam para dizer que o trabalho está bom. Mas também eu vim a Cabo Verde expressamente para isso, para chegar perto das pessoas que gostam da minha forma de estar na música. Para conquistar outros. Enfim, aqui para fazer a promoção do disco.

E porque é que este CD tem um preço diferenciado dos demais trabalhos que estão no mercado, devia ser mais caro, já que o fizeste sozinho?
Eu sei o que me custou este projecto, dificuldades que as pessoas em Cabo Verde enfrentam para comprar um CD. Normalmente os preços dos CD giram em torno dos 1500, 1600 escudos e até mais. Muita gente acha que a qualidade está no preço, mas eu penso diferente. Sei que o meu disco tem qualidade mas nem por isso exorbitei no preço. Quis colocar um preço mais acessível, para que todo o cabo-verdiano que queira ter um disco do Beto Dias possa comprá-lo por um valor razoável.

Neste caso qual é o preço razoável para ti?
Eu quero que seja vendido por 1100 escudos em todo o país, pelo menos neste mês de promoção. E o preço poderá continuar por um ou dois meses, isso apesar de alguns revendedores e muitos dos meus colegas músicos discordarem de mim, acham que não devia colocar este preço porque significa baratear um CD com qualidade.

Preço “baixo” para evitar a pirataria?
Pode ser um dos motivos. As pessoas precisam ver que, normalmente, quando compram um CD pirateado este não tem a qualidade de um CD original, não tem a capa com todos os créditos como por exemplo quem fez as letras, os donos das composições, onde aconteceram as gravações, etc., a própria gravação. O estranho é que quem pirateia as músicas não são os cabo-verdianos, mas gente vinda do continente, à procura supostamente de melhores condições de vida no país, que mais fazem a pirataria em Cabo Verde. Não reprovo ninguém por procurar uma vida mais digna, até porque eu também estou buscando isso na Europa, ou seja, aqui ou lá nós todos tentamos isso, mas que o façamos honestamente. Repito, para não ser mal interpretado, respeito o direito que todos temos a uma vida melhor, mas que aqueles que vêm de outros países nos respeitem. Também apelo a todos os amantes da música a pensarem duas vezes antes de comprarem um CD pirata. Porque ao fazê-lo estão a apoiar este tipo de negócio irregular, e o que é mais grave, a prejudicar os artistas de Cabo Verde.

Voltando ao “Totalmente di bo”. Onde é que o gravaste?
O disco foi gravado 80% na Holanda e 20% em Cabo Verde. Na produção e arranjos participam Djoy Delgado, Jorge do Rosário, Dabs e Danilo Tavares, com quem sempre trabalhei desde os Rabelados, e ainda Johnny Fonseca e outros.

Notei vozes femininas que não consegui reconhecer. Novos talentos? Vozes promessa?
As vozes femininas são de Marlene Fortes, que participou na música “Sólido (nos amor)”, um dos batimentos que eu gosto mais neste CD. Na faixa “Segredo Público” há a participação de uma amiga minha, Manu, que é natural de São Nicolau e faz uma parte de um Rap muito interessante. “Amor é cegu” conta com a voz de Milena Tavares. São vozes promessa, com sonoridades muito interessantes e que podem vir a dar que falar na música de Cabo Verde. Mas há outras participações como a do Roger, Lily Spencer, Nhone Lima, etc. É tudo gente já conhecida da música em Cabo Verde.

Com este CD que mensagem queres passar?
No funaná “Nen pa Ka tenta” falo de realidades que estão a passar em Cabo Verde neste momento. Por exemplo: vem alguém de fora que não conhece Cabo Verde, que não tem o amor por este país como eu ou todos os crioulos têm, pede algum terreno e dão-lhe o melhor lugar para construir. Já um filho da terra tem que esperar no meio de muita burocracia. Por isso chamo a atenção, a quem de direito, para olhar um pouco mais esta questão. Por exemplo, se acontecer alguma coisa e nós cabo-verdianos que vivemos fora tivermos que voltar para Cabo Verde, como fica?

Na música que dedicas à tua mãe mostras uma relação de afecto e reconhecimento...
Não é para a minha mãe em especial, mas através dela canto a todas as mães e claro que para a minha também. Na composição deixo extravasar o carinho, o amor, essa relação umbilical que todos nós continuamos a ter com a nossa mãe. Coisa que muita gente quer falar para a mãe mas não consegue por palavras, então funciono como um mensageiro. Por isso é dedicada a todas as mães, mais precisamente às mães cabo-verdianas. Por exemplo, quando canto “Nos Gratidon é infinito, mi nta agradece Deus ke danu bo, pa ser nos deusa”, acho que é o que sentimos ou devíamos sentir pelas nossas mães. Elas merecem isso e muito mais.

Fala-me dos outros projectos. Sei que participaste no disco do músico Antero Simas e que aí arriscas numa morna. É a tua primeira morna? Como foi isso?
Sim, é a primeira vez que eu canto uma morna. O Antero convidou-me para participar no seu projecto, que tinha géneros musicais, como coladera, morna, funaná, enfim, mais música tradicional de Cabo Verde. Ele disse-me que me queria ouvir a cantar morna. Eu ainda lhe respondi que ele sabe que não sou cantor de mornas, apesar de apreciar muito e respeitar as nossas grandes vozes masculinas e femininas que cantam esse género. Eu ainda lhe disse “tenho medo de cantar porque posso estragar a tua composição”. Mas ele insistiu e convenceu-me a cantar. Então cedi.

E como foi esta experiência?
Não sei como explicar. Quando a música ficou pronta o Antero disse-me que era aquilo que esperava e queria ouvir de mim.

Com esta experiência, pensas algum dia cantar mornas?
Pode ser, também faz parte da música do meu país e é a minha cultura, por isso se este for outro caminho que tenho de seguir, por que não? Faço-o com muito orgulho.

E tens mais projectos, além do lançamento deste CD?
Depois de lançar e promover este trabalho em todo o país, começo a preparar um DVD Live deste “Totalmente di bo”, com outras músicas também. Mas por enquanto vou concentrar-me só no CD. Tenho shows nos dias 9 e 10 de Abril em Madrid, 11 em Lyon (França), e 18 em Portugal.

E o lançamento oficial deste trabalho aqui em Cabo Verde é para quando? Como o imaginas?
O lançamento talvez seja daqui a um mês, mês e meio. Quero que seja um lançamento em grande.

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