NOS KU NOS

A SEMANA : Primeiro di?rio caboverdiano em linha

Dia da Família. Como evoluiu o binómio família-migração 16 Maio 2017

Por ocasião do Dia da Família, este ano, dei por mim a recriar de memória trechos literários sobre a emigração nossa. Recreei-me por temáticas como O querer ficar e ter que partir, Si ca bado ca ta birado (Si ka badu ka ta biradu), e o hino Hora di bai. Rememorei-os esta manhã enquanto ouvia comentar: O quadro da migração cabo-verdiana evoluiu tanto! Emigravam os homens, as mulheres ficavam a liderar a família, como mostram os extratos, a seguir, da nossa conterrânea  Isabel Almadina, que, em ’A Saga da Água’, documenta uma realidade passada  há 80 anos.

Dia da Família. Como evoluiu o binómio família-migração

   

    A Filha do Emigrante

  Quem sai da vila e vai pela ribeira na direcção sudeste, acima, ao fim de um par de léguas encontra um bardo de pedras cercando uma plantação de bananeiras.   Sem saber, poderá estar  a ser visto da janela do sótão de uma casa assobradada, escondido tanto pela densa folhagem quanto pela exígua janelinha tapada por esvoaçante cortina. Quem habita o quarto assim escondido dos olhares de quem passa, são poucos os que o sabem. É o mais bem guardado segredo das redondezas. Tudo começara num dia já bem longínquo.   Uma carta a anunciar a tão aguardada chegada pôs tudo em alvoroço. Dez anos de espera contados um a um, dia após dia…

Tanto tempo passara já desde a madrugada do dia em que a mula, ajoujada com a mala de latão foi conduzida pela arreata pelo Vicente, menino de casa, aí criado desde a mais tenra idade, enquanto o Cosme cavalgava a égua ruça.

As despedidas tinham sido bem dolorosas. A jovem mulher de Cosme, a Delfina, de figura delicada a condizer com o nome, nenhum esforço fazia para segurar as lágrimas. Mas em frente dos outros calava as palavras que dissera havia pouco: “Ó Cosme, ene ê pa ba. Ó Deus, pa via de quê bo casá ma mim pa bem dexa-m nhe me-so?”

Entre lágrimas e súplicas, não mais pôde ser adiada a partida. O aviso chegara de que o navio para São Vicente saía do Paul, daí a nada, pouco mais de três horas.

Um mês fazia que Cosme se fora. Um mês mais e carta nenhuma ainda. Mas não era de estranhar: a América tão longe…

Mais outro e outro mês. Até que um dia… a carta. De tempos a tempos, três, quatro vezes num ano, lá ia chegando uma carta. Mandava dinheiro. Ela guardava-o.

Depois as cartas foram rareando. Até que um dia, já se tinham passado cinco anos, era fácil de ver pelo crescimento dos meninos, as cartas emudeceram.

Fonte da foto: ignorando-a sou, todavia e deveras, grata a quem a fez e a disponibilizou a todos. A possibilidade de a escolher para acompanhar este artigo, mesmo se o navio ao longe tem um outro significado — que não o apresentado nesta narrativa — não deixa por isso de se mostrar útil para marcar a ideia da partida.

Os artigos mais recentes

100% Prático

publicidade






Mediateca
Cap-vert

Uhau

Uhau
publicidade


Newsletter