OPINIÃO

A SEMANA : Primeiro di?rio caboverdiano em linha

Henrique Tavares – Uma crónica ao “som de cimboa” 03 Maio 2017

Resumidamente, o que é cimboa?

A Simboa é uma espécie de rabeca constituída por um caixa-de-ressonância feita de uma cabaça cortada com dois orifícios circulares. O orifício maior é coberto por uma membrana de pele de cabrito e o menor é aberto para a saída do som. O seu braço de madeira termina por uma cravelha onde se prende uma corda feita de crinas de cavalo fixada num pequeno cavalete, que fica ligado à caixa-de-ressonância. O seu manuseio consiste na fricção da corda com um arco feito de um ramo de acácia em que as extremidades estão ligadas por uma corda feita de crina de cavalo.

Por: Nataniel Vicente Barbosa e Silva

Henrique Tavares – Uma crónica ao “som de cimboa”

Este instrumento foi muito utilizado no acompanhamento do Batuque, do Finaçon e da tabanca. Actualmente apenas o Manu Mendi toca este raro instrumento em todo o mundo. Os restantes exemplares que existem encontram-se em alguns museus da ilha.

Henrique: Significa "senhor do lar", "príncipe do lar" ou "governante da casa".

Henrique tem origem no nome germânico Haimirich, composto pela união dos elementos, heim que significa "lar", "casa" e rik, que quer dizer "senhor", "príncipe", "poder", da qual resulta em “senhor do lar", "príncipe do lar" ou "governante da casa”.

Posto isto, vamos saber quem é o nosso Henrique Tavares, “ o governante da casa e o dominador da Cimboa”.

Efectivamente, Henrique Tavares é filho de um humilde casal: Cândido Varela e de Leandra Tavares. Nascido a 12 de Novembro de 1905 em Colhe Bicho arrabaldes da actual cidade turística de Mangui.

Recorde-se que Tarrafal de Santiago ganhou o seu estatuto de cidade há bem poucos anos.

Porquanto: Na época do nascimento do Nhu Henrique Tavares muito provavelmente a antiga Vila não passava pois, de um pequeno povoado.

Henrique Tavares à semelhança de outras crianças do seu tempo não conheceu os banquinhos da escola. Em Colhe Bicho onde nasceu como acima referenciado cresceu e labutou até atingir a idade adulta. Aos 49 anos de idade já então pai e chefe de família se aventurou para São Tomé e Príncipe, destino que foi também na altura de muitos cabo-verdianos, aí conheceu a sua 2ª mulher com quem passou a viver e, com ela mais tarde viria pois a se casar e juntos viveram até à sua morte em 1995.

Nhu Ariki e a sua grande afeição pela Cimboa

Nhu Ariki muito cedo se apaixonou pela cimboa onde segundo diz a viúva aprendeu o seu manuseamento com um dos familiares. Cimboa, um instrumento hoje em dia muito raro e pouco conhecido pela gente jovem.

Relacionado à cimboa, o “rei da morna”. O incontestável Bana canta um poema de Arménio Vieira:

“Toca cimboa rapica tamboro canta cu alma sem ser magoado”. O leitor já está provavelmente sedento de ouvir esta linda música que fez muito furor anos atrás.

“Alen li na sinboa di karasku” (carrasco) segundo o dicionário português é alguém sem piedade, um verdugo. A fome no sentido figurativo é um carrasco. (Sinboa di karasku). Faz-me recordar com isto um conto humorístico pouco conhecido pela malta jovem. Essa piada muito antiga reflectia a vida difícil do tempo colonial. “Kau mau!” (Fome). Como se sabe o povo cabo-verdiano foi sempre sujeito às mais diversas provas ao longo dos séculos. Tão acostumado às intempéries da vida que leva tudo na “diskontra” como dizemos entre nós. Ironiza tudo, por vezes brinca, canta e goza com o seu próprio destino fintando as adversidades, passo o termo. Como canta o célebre Morgadinho “si el ta tristi e un koitadu”. Mas, isso é conta de um outro rosário que os “experts” na matéria poderão talvez melhor analisar para não entrar em seara alheia. Por agora vamos debruçar um pouquinho sobre o Nhu Henrique Tavares e a sua cimboa.

“Nhu Ariki sinboa” como era conhecido no Tarrafal, no mundo artístico particularmente pelo que se sabe não ganhou assim tanta notoriedade do que naturalmente merecia ao contrário dos seus congéneres da música tradicional, tais como Codé di Dona, Bibinha Cabral, Nhu Ntoni denti d,oru de São Domingos e outros. Henrique Tavares em São Tome e Príncipe

Nha Totinha (viúva de nhu Ariki sinboa) pouco recorda de outras referências do marido por razões que se prendem especialmente com determinadas situações por que a mesma tem passado nomeadamente doença e outras circunstâncias adversas de natureza psicológica. Tanto é certo que ela é 30 anos mais nova que o seu consorte. Avança pois, que os dois encontraram-se em São Tomé e Príncipe nos meados de 1954 e lá passaram a viver juntos, dessa união nasceram no arquipélago duas das cinco filhas. Que trabalharam ali cerca de 8 anos e regressaram a Cabo Verde por volta do ano de 1962 e dado a situação da terra alguns anos depois embarcaram de novo para São Tomé e Príncipe e só voltaram definitivamente para Cabo Verde na altura da Independência.

Nhu Ariki Cimboa assistiu a Independência Nacional

Nhu Ariki como era carinhosamente tratado na comunidade onde vivia. Foi realmente segundo se conta uma figura simples e pacata. Um homem do povo que bem se adaptou à nova geração e teve o privilégio de ver o amanhecer da nova aurora que culminou com a Independência Nacional (05 de Julho de 1975). Na altura Nhu Ariki contava com 70 anos de idade.

Nhu Ariki e Nha Bibinha na Praia

A viúva (Nha Totinha) hoje um pouco avançada de idade mas ainda bem lúcida. Muito brincalhona de origem de gente simples recorda que “Ariki” como era tratado por ela foi uma pessoa muito carinhosa que andava sempre alegre e dava-se bem com toda a gente. Adianta pois, que acompanhava Bibinha Cabral nas suas digressões pelo interior de Santiago quando ela era convidada para alguma festa. Ele com a sua cimboa e nha Bibinha com o seu ritmo clássico de finason. A propósito, conta um episódio interessante que se passou na Praia entre os dois onde foram convidados para abrilhantarem uma festa. Uma história que forçosamente dá para alguns sorrisos.

Começa assim: Ez era doz guentis ki ta andaba senpri djuntu pa tudu festa. Realça: Ariki ku si sinboa nha Bibinha ku si “txabeta” ez konbidadu anton pa un festa na Praia, di noti ez priparadu sez kuartu di kazadu, kantu Ariki sabi ma kuartu era kelun pa es doz e txoma algen ki pripara kuartu e flal: -ranjan nha quartu dimeu mi so pamodi nos nu ka kasadu.”

De facto, (amigo, amigo, quarto a parte) como se costuma dizer. Uma atitude nobre que hoje infelizmente já não existe. O quarto de nhu Ariki foi então imediatamente arranjado.

Henrique Tavares e a sua paixão pelos pombos

A última filha do casal hoje com 45 anos de idade, uma senhora também muito simpática e aberta recorda que o pai era um excelente tocador de Cimboa. Que nas tardes quentes de Verão costumava juntar à volta da casa dezenas de pessoas ouvindo os seus acordes. Realçando pois, que o pai tocava e cantava entusiasticamente. Mas, que apesar disto, era um homem caseiro, reservado e pouco dado às paródias, que a sua principal distracção para além da cimboa era a criação de pombos, que foi a sua grande paixão.

Que os bichinhos costumavam pousar-lhe em cima dos ombros. Avança pois, que ela estava numa altura a ser incentivada para uma aula na Praia relacionado à confecção da cimboa e o seu manuseamento mas que não agarrou ao projecto por motivos pessoais.

Nhu Henrique Tavares chegou a trabalhar na Câmara Municipal do Tarrafal como varredor durante alguns anos mas infelizmente foi para a casa sem nenhuma pensão porque não sofria de quaisquer descontos nos seus salários para a reforma pelo que a viúva hoje para além da idade enfrenta alguns problemas de saúde e só beneficia pois, de uma irrisória pensão de 4 900$00 dos Assuntos Sociais vivendo ao cuidado da sua última filha.

Nha Angelina Sanches Soares, ou “nha Totinha” como é popularmente conhecida se enviuvou aos 60 anos de idade com a morte do marido “nhu Ariki” o foco principal deste artigo. Confessa que nos primeiros anos após o desaparecimento do marido a sua vida sem a presença física do marido não foi assim tão fácil mas que graças às suas cinco filhas as dificuldades foram minimizadas.

Uma das maiores mágoas da nha Totinha

Se na verdade a morte do marido (nhu Ariki Cimboa) em 1995 tem-lhe causado um certo vazio e muitos desgostos na vida também não é menos verdade que o falecimento repentino de um filho com apenas 55 anos de idade em Portugal há 5 anos lhe tem deixado ainda mais abalada sofrendo até hoje sequelas da sua morte.

Ora, recorde-se que “nhu Ariki sinboa” como era assim conhecido, faleceu em casa aos 90 anos num Domingo em 07 de Novembro de 1995 depois de uma doença prolongada. Espero ter agradado aos amigos leitores com esta crónica de uma pessoa que infelizmente já não vive entre nós mas que deixou marcas indeléveis na vida que o tempo não vai apagar assim tão cedo.

Os meus sinceros agradecimentos à viúva e a filha (Natália) que me cederam gentilmente estes preciosos detalhes.

Ad aeternum.

Um abraço a todos.

Hasta la próxima.

Tarrafal, aos 02 de Maio de 2017.

Os artigos mais recentes

100% Prático

publicidade






Mediateca
Cap-vert

Uhau

Uhau
publicidade


Newsletter