OPINIÃO

A SEMANA : Primeiro di?rio caboverdiano em linha

Veneno ou remédio, depende da interação 16 Abril 2017

O método da cenoura e da vara tem sofrido variações através dos tempos. Tem passado pelas turbulências próprias dos ciclos históricos: houve gerações de pais autoritários a que se seguiram permissivos, a que se seguiram autoritários.

Por: Lourdes Lima

Veneno ou remédio, depende da interação

Veneno ou remédio, depende da interação. É uma coluna que está em processo de construção (longe da ’Realização’ (foto) interpretada na pintura de Gustave Klimt). Mas esta semana não resisto a abrir o véu – para dar a ver um caso de subdesenvolvimento: idade parva, ou inteligência parva, ou moral parva? O futuro dirá. Os meus votos são de que lhes passe antes de piorarem.

Facto: Uma viagem de finalistas portugueses a Espanha, com tudo pré-pago, terminou em expulsão. 800 ou mil adolescentes a serem mandados mais cedo para casa. E como há uma música para cada fenómeno, mesmo que não nos diga direto respeito, vem logo à memória a trova Es pta-s na frontera. Como na koladera/coladeira que teve como cenário, fictício ou não, a real Travessa da Peixeira. (Real em sentido próprio e figurado, já que se situa a poucos metros do Palácio de São Bento.)

Interpretações do facto em apreço, essas abundam, desde a da conspícua ganância do hoteleiro e a da agência promotora movida pelo lucro. Partes contratantes que se digladiam verbalmente e irá o tribunal dirimir, ou não.

As agências, talvez seja a lógica do negócio a impor-se, põem-se do lado dos clientes, que têm pais pagantes. Pais a protegerem o filho mimado e que em vez de o chamarem à pedra passam a mãozinha enquanto miram, como inimigo a abater, quem lhes lembra que usar a razão para bem julgar faz parte do seu dever de educadores.

Mas os efeitos sobre a malta (que delinquiu e não foi responsabilizada), esses terão um alcance que só a longo prazo se verá mas que se pode prever com base na experiência e na ciência.

Ou, como disse o pedopsiquiatra Daniel Sampaio, estes jovens — que têm de ser responsabilizados pelos seus atos de vandalismo — poderão vir a ficar impunes porque os pais já não têm autoridade sobre eles. Pais desencorajados, sem ânimo para ensinar e pedir contas. Que futuro?

Basta punir para termos cidadãos exemplares?

Poupa a vara estraga o menino. Este “exemplo” bíblico foi, há mais de uma dúzia de anos, tratado neste semanário (versão papel), numa coluna, Contra(Ditados).

Faço aqui um parêntesis para dizer que Contra(Ditados) tinha a ousadia de dissecar a atualidade usando o método socrático. Intenção talvez pretensiosa talvez escusada, ainda é cedo para avaliar. Precisaria de mais 200 anos, como dizia a professora de Clássicas da Universidade de Coimbra, Mª Helena Rocha Pereira, que esta semana entrou na eternidade.

Saio do parêntesis (que só pode ser metafórico, porque no sentido próprio virá sempre com o seu par) e volto ao assunto central. O método pedagógico do prémio e punição tem sofrido variações através dos tempos. Tem passado pelas turbulências próprias dos ciclos históricos: houve gerações de pais autoritários a que se seguiram permissivos, a que se seguiram autoritários. E claro que estou a simplificar, porque há muitos estádios intermédios entre um e outro tipo, que só utilizamos por razão de facilitação de linguagem.

Dinâmicas de grupo

A interação social que gera dinâmicas próprias nos sujeitos é um outro factor que tem de ser considerado. É que além dos efeitos próprios relacionados com a presença e, em caso defetivo, com a ausência da educação dada em casa, a dinâmica do grupo ao mudar de meio social cria novos factores de interação.

Tais variáveis têm de ser tidas em conta na hora de analisar factos como estes que envolvem viagens de finalistas entregues a si próprios. Ou quase, porque no caso embora houvesse dois policias a acompanhar a malta pode-se perguntar se a presença não é apenas simbólica. Logo, suscetível de não produzir efeitos reais se algo correr mal.

E muita coisa pode correr mal, como …É próprio da vida? Claro que há uma parte que decorre do incerto curso da vida, mas outra parte pode ser evitável. Este caso não escapa a essa regra nem à sua exceção.

Subdesenvolvidos em moral

Consolem-se os protagonistas dizendo-se que podia correr pior. Ninguém morreu, nem sequer houve feridos e só há prejuízos materiais e alguns arranhões no moral de alguns. Aliás, como os vídeos postos a circular pelos próprios mostram houve até egos a serem inflados com as peripécias parvas que protagonizaram.

Subdesenvolvidos, logo parvos. Em idade parvos, em inteligência parvos, em moral parvos. Subdesenvolvidos em tudo, os protagonistas das parvoíces. Ficarão impunes. Outros pagarão por eles – a caução paga por cada um.

Um milhar cobrem perfeitamente os estragos avaliados em 50 mil euros. O amargo de boca é que há uma boa fatia, a boa, a pagar pela outra fatia, a podre.

Mas há quem acredita ainda que aqui se fazem aqui se pagam. Contrariando Camões desgostoso com o “Desconcerto do mundo // /Os bons vi sempre passar/ No mundo graves tormentos;/ E para mais me espantar,/Os maus vi sempre nadar/ Em mar de contentamentos. // Cuidando alcançar assim/ O bem tão mal ordenado,/ Fui mau, mas fui castigado:/ Assim que só para mim/ Anda o mundo concertado.

Moralidade a ver

Por quem queira. Alguns aprenderão a lição, outros não.

Por aqui, estes dias lá vamos topando um ou outro caso de quem sofre e não se exime ao seu dever de educador perante o filho que prevaricou. Ao impúbere deu um bilhete para levar à esquadra, a pedir ao senhor chefe da polícia para "por favor deixe o meu filho aí numa cela fechada um par de horas para ver se ele aprende e evita amanhã fazer o que fez hoje". Ou, usando de dialética socrática, leva o adolescente a tirar as suas próprias conclusões para se emendar.

Pai/mãe que vimos a encher-se de coragem para dizer ao filho “Sou teu pai/tua mãe, estou do teu lado sempre mas não tens razão e tens de pagar”. Porque o mundo é redondo (Eppur se muove), e mesmo se cada homem é um mundo, ainda vamos a tempo. Oxalá os pais destes finalistas em Portugal os obriguem a tirar a sua lição.

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