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Que lugar para a música na Educação 02 Agosto 2014

1. Música ubíqua: Michael Jackson, o pequeno Mozart da geração digital?

 A música está em todo o lado, é ubíqua: há quem não durma se não o envolver a música, há quem diga que estuda com fundo de música, a mesma que optimiza a deslocação, o trabalho, as vendas, o convívio, tudo. E excepção feita aos que são agredidos nas suas horas de descanso, quase ninguém ousa contestar a omnipresença da música.

Por: Maria de Lurdes Lima

Que lugar para a música na Educação

Aprendemos a viver com ela, pais e professores só in limine questionando se as escolhas são adequadas àquelas idades. Quando o jovem, as crianças nas festas, até nas de Natal na escola, preferem dançar músicas com letras “adultas”, de violência de vários tipos, mais ou menos explícitos, de sexismo à solta que indigna. Mensagens que vão minando todo o trabalho educativo.

2. Música modela educação: bem ou mal?

A lamentar ou a buscar entender, pais e professores, uns com mais ou menos ênfase entram no coro, são variados os temas de conversa que entretecemos sobre hipotéticas conexões entre os seus comportamentos e a música que ouve e dança, esta geração mais nova.

Os seus hábitos de estudo, pior, a falta destes. Aqui tematiza-se ainda sobre pais que já não sabem o que fazer aos filhos, e que dizem isso na escola. Sobre jovens que não cedem lugar aos mais velhos. Sobre a cidade onde “ser grande”, já não é valorizado.

A música a altos decibéis, a dança que a acompanha, feita de meneios inestéticos, menos próprios, a acompanhar as letras da música. Mensagens que ora explícitas ora actuando na camada oculta, subliminar, vão minando todo o trabalho educativo.

E, na mesma linha do conteúdo, apontamos dedo em riste os veículos que tornam essa música acessível. Audio-video em qualquer lugar e a qualquer hora. Via internet porque qualquer criança pode aceder a, descarregar, qualquer tipo de conteúdo. Às vezes deduzimos que por trás de uma ou outra actuação das nossas camadas juvenis, de súbito nos explodem nas mãos, estariam tais veículos audio-video.

 Falamos disso, na intimidade, das casas e encontros de pais e professores nas escolas, mas também na praça pública – desde o mercado de rua e “carreira dez” aos média e outros debates. Estes, prolongamo-los em exercícios e ensaios universitários. Falamos enfim das nossas vidas no presente porque temos de preparar hoje o amanhã.

E onde há educadores encartados à escuta, os demais educadores fazem-se desautorizados e clamam: Que “mesti” dar solução a tudo isso – para encarrilar os jovens transviados, para valorizar a escola e pôr o mérito acima de tudo, para recuperar os (bons) valores.

3. A Mãe é que tem a culpa?! Isso era dantes, agora, nós, é a nossa vez de irem busca de bodes expiatórios, culpamos as novas tecnologias. Mas como certo dia a professora lembrou a pais de meninos que viam muita TV: “É a TV a culpada? Então o senhor, a senhora não desliga porquê? Olhe que é o mesmo botão, dá para ligar e desligar!”

Mas… fosse hoje, dois decénios depois e duas (ou mais) gerações de alunos depois, diria o mesmo?  Cortar o acesso não é mais a solução: hoje tornou-se quase impossível, tantos os meios ao dispor de qualquer criança. As certezas de há 20 anos, tantas etapas depois, tiveram de ser revistas. Cada geração tem as suas especificidades, cada indivíduo tem uma forma única de reagir a estímulo igual. E os estímulos são tantos, criados agora em laboratórios de marketing, com base no pouco que os laboratórios das ciências mais “duras” vão desvendando desse ser complexo que cada um de nós traz em si, ignotus homo (o homem esse desconhecido). Cortar o acesso hoje tornou-se quase impossível, tantos os meios ao dispor de qualquer criança, a geração alvo-primeiro das novas tecnologias. A abordagem tem de ser à medida:

4. Educar pela música?

4.1. Educar: um ideal local e global.

Educar porquê? Porque reprimir não resulta mais no estádio evolutivo actual. O ideal democrático das sociedades do século XXI, que têm de desmontar os modelos económicos competitivos até agora vigentes, só pode ser alcançado com cidadãos que escolham ser solidários. De competitivo Homo hominis lupus a solidário, sem comprometer os caminhos do futuro. Dizer é fácil difícil é fazer: as camadas reptilianas do nosso cérebro impelindo-nos para a agressão, sobre as quais assenta o Homo hominis lupus, têm de ser dominadas pelas camadas mais evoluídas, as que nos projectam para as alturas do ideal, desejando no mais profundo de nós ser bons, trabalhar para o bem comum.

4.2. Educar para a era digital, porque cortar o acesso não é mais a solução. Lição primeira. Nós, temos sim de dominar a tecnologia. Mas a tarefa é imensa, num tempo e espaço em que a medida do Homem, o ser humano, tem que competir com muitas outras, que orbitam em escalas de nível planetário. A iniciativa individual, já tão difícil de gerir no círculo menor que é a nossa aldeia, tem ainda que receber o aval de um círculo maior.

4.3. Dominar a tecnologia faz parte da educação, que é um processo longo e complexo, que tem o seu arranque bem cedo na história de vida individual e colectiva. Educar, e educar-se, é a marca mais visível da nossa humanidade, instituída em boa parte pela palavra que transmite saberes e práticas, num eixo de transmissão que atravessa tempos e espaços culturais. A educação tem milénios de história, mas só conhecemos uma parte, de que não podemos prescindir. Que é passado perspectivado do ponto onde estamos para podermos traçar o rumo, entendendo que a educação tem de ser inteligente, no sentido de iluminar a existência. Isto é, tem que ser feita à medida das necessidades múltiplas que esta época, esta sociedade e cada indivíduo enfrenta, incluindo o domínio da tecnologia específica.

4.4. Mas esta tecnologia tão omnipresente que invade todos os saberes que tínhamos aprendido, é hoje tão invasiva que muitas vezes o infoincluído vê que a sua realidade de súbito se tornou obsoleta e ele próprio caiu na esfera da infoexclusão. Não só fora como dentro de si, a realidade que conhecia… já é outra. Ademais, esta realidade que se reinventa todos os dias promete-nos muito e no fim nada dá: conclui-se, sobretudo entre a geração que não teve tempo para aprender a lidar com a frustração. Insatisfeitos, porque lhes falta algo, e por  extensão o seu vazio é o nosso próprio vazio. Desde o mais profundo de cada um, porque corremos o risco de interiorizar os slogans que nos dizem que somos o que a tecnologia mostra de nós. Só a educação capaz de equacionar os novos dados à luz dum humanismo que vive e se revitaliza pode atingir os seus fins ideais.

5. Direito à educação tem de incluir o direito à educação em música

Entre as finalidades da educação musical estarão o educar para a escuta activa, de modo a preparar a criança desde cedo a proceder a escolhas fundamentadas neste domínio. Ao traçar o programa ter-se-á em conta não só a música como um conteúdo, mas sobretudo como suporte de outras aprendizagens. Aqui surgem logo duas perguntas incontornáveis:

5.1. Como se fará a integração curricular? O país pode pagar?

Num contexto como o nosso, em que a contenção orçamental é de regra, não se pode preconizar a introdução da música como mais uma disciplina nos currículos do ensino obrigatório.  A música tem de ser perspectivada enquanto um dos conteúdos a explorar nas disciplinas do actual currículo. A novidade a nível curricular é que haverá indicações expressas sobre os objectivos a atingir com esta componente musical.

Educar o cidadão no sentido de o libertar através do conhecimento terá de continuar a ser uma prática universal. A geração digital exige um utente educado para os novos desafios. Esse papel cabe à Educação.

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